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Ufac e índios de 11 etnias discutem curso de docência indígena no Vale do Juruá

Agência de Notícias do Acre - http://migre.me/pdeJ
Autor: Flaviano Schneider
17 de mar de 2010

Formação ajuda na valorização e resgate da cultura indígena nas aldeias da região

O Curso de Formação de Docentes Indígenas (CFDI) da Ufac e a Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac) realizam durante esta semana o 'II Seminário Encontro com os Conhecimentos' com a finalidade de promover o debate sobre o curso entre os próprios alunos e a comunidade. Segundo Andréa Martini, coordenadora interina do CFDI, está em debate a estrutura do curso dentro do projeto político pedagógico. "É hora de trazer contribuições, revisar ementas, avaliar a capacidade das disciplinas em trabalhar com os conceitos indígenas e não-indígenas e também o momento em que várias pessoas de vários lugares e organizações são convidadas a contribuir com o curso, sejam indígenas ou não".

São 11 etnias participando do seminário: Ashaninka, Kaxinawa (Huni Kuin), Jaminawa, Yawanawa, Manchineri, Marubo, Nukini, Nawa, Puyanawa, Shawandawa e Katuquina. Todas apresentaram uma pequena mostra de sua cultura na abertura. O CFDI funciona com duas turmas, num total de 52 alunos, tem duração de quatro anos e a primeira turma se forma em 2012.

Com o curso os professores indígenas obtêm a Licenciatura Intercultural. No quarto, quinto e sexto semestre, acontece a opção por uma das áreas de atuação: Ciências Sociais e Humanidades, Ciências da Natureza, Artes e Linguagem, ou seja, os participantes têm formação completa do ponto de vista pedagógico e ao final partem para uma área de atuação de acordo com o interesse de pesquisa ou como professores. Alguns já trabalham nas aldeias e os outros também querem trabalhar nas aldeias.

Educação diferenciada
O professor do curso Manoel Estébio ajudou a coordenar o primeiro seminário e cumpre a mesma função no segundo. Para ele o CFDI é exemplo para os demais cursos da universidade porque é o único que envolve os discentes na discussão do próprio projeto do curso. Ele conta que no primeiro seminário alguns aspectos pouco favoráveis à aprendizagem dos alunos indígenas foram apontados, os quais a direção do curso procurou superar. "Agora a percepção é de que surgirão novas sugestões para o aperfeiçoamento do curso".

Manoel lembra que a educação diferenciada no Brasil é uma coisa muito recente. Até antes da Constituição de 88, o Brasil esperava a integração do índio. A partir daí, a ideia é que a educação possa contribuir para a preservação das culturas e ajudar as etnias a recuperar suas tradições. "Isto é difícil porque a cultura brasileira é uma cultura de autoritarismo e de monoculturalismo. Temos aqui 11 etnias, quer dizer são 11 maneiras de ver o mundo e é difícil, numa sociedade que tem uma tradição de monocultura, aceitar isso".

Troca de conhecimentos

Wewito Pinhanta é índio Ashaninka, reside na Terra Indígena do rio Amônia e é professor pertencente aos quadros da Opiac. Participante do seminário, ele considera o curso de docência indígena importante "para entender um pouco do conhecimento que não é do nosso mundo". E para bem entender, ele acha preciso discutir o que é bom para cada índio. "Estamos adquirindo conhecimentos e levaremos para a comunidade o que ela necessita. Colocar este conhecimento em prática junto com a comunidade, dentro do nosso processo de desenvolvimento e preservar nosso conhecimento e também divulgar nossa cultura", argumenta.

Fernando Katuquina, liderança em sua aldeia situada na BR-364, é acadêmico do curso. Para ele, é muito significativo o fato de que os próprios alunos índios possam contribuir na construção do curso e acredita que a orientação toda deva ser no sentido de melhorar a vida das populações indígenas do vale do Juruá.

Nani Yawanawa: os conselhos de um líder
Líder da Aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena Yawanawa, Nani Yawanawa é um dos primeiros professores indígenas do Acre e conta que em 1983 quando as lideranças indígenas tradicionais pediram escolas para as terras indígenas ele esteve na primeira turma de formação de professores. Desde então, acompanha o movimento até chegar agora ao curso superior.

Na abertura do seminário, com a bagagem de sua experiência, ele dirigiu palavras de sabedoria aos irmãos índios e recebeu muitos aplausos. Veja os principais tópicos:

Experiência com escolas indígenas:

Nani - "Durante todo esse tempo de aprendizado aprendi que as escolas das terras indígenas não eram apenas ler e escrever; é também cuidar da terra, da floresta, da água, continuar nossa vida em cima da terra".

Mudanças:

Nani - "Com a evolução dos acontecimentos, mudou muito a convivência dos povos indígenas. Ninguém pode mais chegar num lugar, acabar tudo e ir embora para outro lugar. Hoje já temos nossa terra demarcada".

Importância da pontualidade nos trabalhos:

Nani - "Não estamos mais nos tempos antigos e não somos filhos de qualquer animal. Somos índios, somos seres humanos. Estamos aqui com um objetivo e nossa responsabilidade é muito grande porque quando nós deixamos nossa terra, nossos filhos, nossa casa, nossa vida do dia a dia para estar aqui nesse curso é para aprender, levar alguma coisa que possa servir para nossa comunidade. Então chamo a atenção para cumprirem com o horário certinho".

Respeito às tradições:

Nani - "Não se envergonhem do que são, porque envergonhar-se do povo indígena é se envergonhar de seus pais, seus avós. É melhor se enterrar vivo do que se negar perante a sociedade. A sociedade precisa muito também que nós possamos contribuir com nosso ensinamento. Queremos aprender o conhecimento aqui do mundo ocidental e também trazer o conhecimento indígena para que a gente possa trocar, fazer esta troca de experiência, para a gente poder escolher um caminho, um caminho de respeito porque hoje ainda existe muito preconceito, muita ignorância e muita falta de respeito".

Preconceito:

Nani - "Eu estava falando outro dia com os meninos que não só o branco tem preconceito. O índio também tem preconceito contra o branco. Mas ninguém tem coragem de ensinar isto em público e dizer na escola para saber que tipo de preconceito que existe".

Interação entre os índios

Nani - "É para a gente se interar uns com os outros, como uma só pessoa, não sentir que um é Puyanawa, aquele é Katuquina, aquele é Kaxinawa, não. Aqui somos irmãos com o mesmo objetivo, o de levar algum conhecimento daqui".

Resgate das tradições

No intervalo do seminário, Nani respondeu a uma indagação: De 1983 para cá a situação dos povos indígenas melhorou no que toca ao resgate de sua cultural e tradições?

Nani: "A partir do governo de Jorge Viana as comunidades indígenas foram muito incentivadas na questão da mobilização cultural. Aqueles que estavam entendendo continuaram a praticar e serviram de exemplo para os outros e o movimento aumentou muito. No Acre, os povos do tronco linguístico Pano estão se movimentando, estão criando coragem, cada um fazendo suas festas, sem ter mais aquele medo de alguém ficar criticando, de alguém dizer que isso está errado. Todo mundo está se manifestando. Meu povo Yawanawa fez disso um desafio e recuperou suas tradições".

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