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Triste paisagem

O Globo, Opinião, p. 6
13 de Mai de 2007

Triste paisagem

Em uma série de reportagens, O GLOBO mostrou a vida dramática dos assentados pelo Incra em rincões da Floresta Amazônica, uma das muitas faces da reforma agrária no país, tema sobre o qual sobram discursos e falta ação eficiente do governo.

A situação criada por essa iniciativa tinha tudo para dar errado, e está dando. Sem transporte, saúde, educação ou assistência técnica, os assentados fazem queimadas para abrir espaço ao plantio de verduras e legumes, aumentando o desmatamento. Freqüentemente, são escorraçados ou aliciados por pistoleiros, grileiros e madeireiros, interessados em suas terras ou na derrubada de madeiras nobres nos assentamentos. É uma inversão do objetivo inicial do Incra, que era justamente inibir a ação dos madeireiros.

Com essas distorções, poucas das mais de 1.400 famílias de sem-terra levadas nos últimos quatro anos para 15 assentamentos na Amazônia permanecem nos locais. Vencidas pela insegurança e pela falta de infraestrutura, apavoradas pelas ameaças, elas deixam seus lotes, mas continuam registradas como beneficiárias, engrossando as estatísticas oficiais. Na verdade são, como registrado, assentados fantasmas.

Um dos grandes problemas dessa iniciativa é a falta de uma ação complementar consistente de orientação, assistência técnica e acompanhamento dos assentados. Muitos relataram que não tinham recebido do Incra os devidos esclarecimentos sobre os aspectos obrigatórios de preservação e manejo da floresta. Fato que é tanto mais grave quando se trata da Amazônia, foco de justificadas preocupações ambientais. E que deveria merecer do governo uma atenção especial.

Sem ela, o que se tem é uma triste paisagem de florestas queimadas, árvores derrubadas, caminhões carregados de toras e pastagens a perder de vista.

O drama dos assentados vivido na Amazônia pode ser testemunhado em outras regiões. Tudo porque o Incra tornou-se um espaço na máquina pública que serve para tudo: luta ideológica, aparelhamento do Estado, acesso fácil ao dinheiro público por aliados políticos, menos para reforma agrária propriamente dita.

O Globo, 13/05/2007, Opinião, p. 6

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