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A triste luta para salvar espécies

OESP, Vida, p. A24
29 de abr de 2007

A triste luta para salvar espécies
Com a redução de hábitat, animais começam a rarear até nas florestas

Eduardo Nunomura
Enviado especial
Una (BA)

Pesquisadores da Reserva Biológica de Una trabalham para que o mico-leão-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) entre na lista de animais criticamente em perigo. Com a perda de hábitat, está cada vez mais difícil encontrá-los soltos.
Triste essa profissão de lutar para constatar o pior. Mas pode ser a única forma de salvar uma espécie. Natural do Corredor Central da Mata Atlântica,o mico-leão-da-cara-dourada começa a abundar em cativeiros para rarear nas florestas do sul da Bahia. Territorialistas, vivem em grupos e disputam árvores com bandos da mesma espécie. Aceitam o convívio com o mico-estrela(CallithrixKuhli),mas em parte do dia. E são "chatos": só dormem em ocos, comem poucos tipos de frutos e pequenos insetos, bebem água límpida de bromélias.
O jovem biólogo Carlos Eduardo Guidorizzi, de 27 anos, compara micos que vivem na reserva e em uma mata semidecidual, com seca mais severa e definida, na cidade de Itororó. A primeira está preservada. Na segunda, qualquer área de 500 hectares já é chamada de mata.
]Leonardo Neves, de 30 anos, analisa a distribuição geográfica do animal para descobrir locais prioritários de conservação. Para ambos e Nayara Cardoso, de 25, outra bióloga que trabalha na reserva de Una, uma certeza: o primata só consegue sobreviver bem em áreas preservadas.

Sorte deles contar com Bila, ou Jiomário dos Santos Souza, um ex-trabalhador de serraria.
Hoje se redime como assistente de campo dos pesquisadores. É ele quem localiza na mata os animais que têm colares de identificação. Trabalhar na Rebio de Una, na BA-001, no trecho Una-Ilhéus, é um privilégio. Apenas pesquisadores têm acesso aos seus 11 mil hectares. É como o éden da fauna e flora da mata atlântica.

Muito diferente do trabalho desenvolvido pela bióloga Vera Lúcia de Oliveira com a preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus). Ela recebe os animais que perderam a morada. Sempre frágeis, estressados, feridos, com chances diminuídas. Devolve os que sobrevivem no quintal onde trabalha, uma área de 43 hectares da Reserva Zoobotânicada Ceplac, em Itabuna."Tem muitos ganhando milhões em cima do animal enquanto o bicho está morrendo. Só vêm fazer pesquisa para se auto promover, publicar um trabalho", diz.

Ela fala com raiva também da destruição da mata atlântica, que só tem feito aumentar seu trabalho, e do eucalipto,um dos maiores vilões. Não acredita quando lê colegas dizendo que o bicho sobrevive em cafezais ou plantações de eucalipto. "Onde é que há corredor ecológico?"

A preguiça-de-coleira vive pendurada em árvores nativas.
Passa dias sem descer delas. Come só folhas novas de espécies como gameleiras e ficos. Desde 1993,o centro de recuperação já recebeu 235 preguiças-de-coleira e libertou 83, o mesmo número das que não resistiram. "Infelizmente só estou retardando a extinção da espécie", reconhece Vera,lágrimas nos olhos.

Espírito Santo e Bahia terão US$ 14 milhões em recursos

Itapebi (BA)

Só em 2003 é que se reduziram os desmatamentos no sul baiano. Fruto de uma ação judicial da Rede de ONGs da Mata Atlântica e do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá), que proibiu caminhões circulando com madeira cortada."Enquanto discutíamos e pensávamos no projeto, a mata atlântica estava indo embora", reconhece Renato Cunha, coordenador do Gambá. Um ciclo conhecido:retirada de madeiras nobres, queimadas ilegais e carvoarias. No Parque Estadual do Conduru, o corte ilegal continua até hoje.
Falta fiscalização.
Desde 2002, quando o projeto passou a contar com recursos da Comunidade Européia, do governo alemão e uma contrapartida da União, a Bahia não recebe recursos. O governo ignorava o projeto.

Na primeira fase,foram US$ 5 milhões. Nesta segunda, serão US$ 28 milhões para a mata atlântica e a Amazônia, onde também há um projeto de corredor. Na Amazônia, a idéia é conservar o que se tem: áreas contínuas de até 300 mil hectares.
No corredor litorâneo, a média é de 10 mil hectares.

Daí a necessidade do diálogo. "Vimos que estávamos há anos batendo nas empresas e nada saía de positivo", diz Luiz Paulo Pinto, diretor da Conservação Internacional. Iniciativa privada, ONGs e governo hoje sentam-se para discutir o que fazer. Uma das discussões é como gastar os quase US$ 14 milhões destinados exclusivamente para a mata atlântica. Só para este ano já foram assinados US$ 4 milhões em convênios.

Na Bahia,o Ministério Público hoje pune quem desmata. Antes, madeireiros ou proprietários rurais derrubavam 10 hectares de mata nativa e, se flagrados, pagavam uma cesta básica. No Espírito Santo, equipes têm à disposição helicóptero e aparelhos de GPS. Lá do alto vêem quem está fazendo queimadas, retirando madeira ilegalmente, e marcam as coordenadas no aparelho. Imediatamente ligam para a polícia, que anota o ponto e vai direto fazer a autuação do crime. E.N.

Corte de madeiras persiste com o 'industrianato'

O corte de madeiras nobres da mata atlântica persiste numa atividade muito peculiar, o "industrianato". Apesar de proibida, a retirada seletiva de jacarandá, pau-brasil, arruda, paraju e arapati é feita para produzir gamelas, tigelas, pratos e outros utensílios. Anualmente, 30 mil metros cúbicos. "Não é artesanato, é industrianato", denuncia Oscar Artaza, da Associação Flora Brasil.
Em geral, as peças são vendidas barato por índios pataxós na beira da estrada, perto de Porto Seguro, Prado e Monte Pascoal, mas foram fabricadas em fundos de quintal. Centenas de pessoas vivem disso, porque há milhares de consumidores dispostos a comprar as peças. E. N.

OESP, 29/04/2007, Vida, p. A24

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