CB, Pena Capital, Caderno C, p. 6
Autor: REIS, Eduardo Almeida
22 de Jan de 2008
Transposição
Eduardo Almeida Reis
eduardo.reis@uai.com.br
"O Amazonas, ao contrário, tem água para dar, vender e irrigar milhões de quilômetros quadrados"
Nosso belo ministro Mangabeira Unger, depois de muitos meses na muda, deu o ar de sua graça. Pesam contra Sua Excelência duas acusações seriíssimas: o sotaque soterobostoniano e as credenciais de filósofo. Isso mesmo que o leitor entendeu: mistura das cidades de Soterópolis (Salvador, BA) e Boston, capital do estado de Massachusetts, em cujo subúrbio pára a Universidade de Harvard.
Filósofos podem ser perigosos pelo seguinte: não raras vezes, pensam e dizem as maiores asneiras. Aristóteles, muito mais importante, como filósofo, do que o doutor Unger, escreveu: "Há na espécie humana indivíduos tão inferiores aos outros que o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Tais indivíduos são destinados por natureza à escravidão porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. Tal é o escravo por instinto: não possui razão além da necessária para dela experimentar um sentimento vago; não possui a plenitude da razão. Os outros animais dela desprovidos seguem as impressões exteriores, e a utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades". É mole?
Não deixa de ser curioso o fato de o ministro, com uma equipe de dezenas de assessores, levar tanto tempo para sugerir a transferência de parte das águas amazônicas para o Nordeste. No final do século passado, acho que em junho de 1997, escrevi numa revista de Brasília o seguinte: "Quando se falou, há tempos, da transposição do Rio São Francisco, perguntei aos meus botões: 'Se é para transpor um rio que inunde o Nordeste, por que não o Amazonas?'. Vejo, agora, na seção de cartas de um jornal, a sugestão do doutor Carone Filho, ex-prefeito de Belo Horizonte, no sentido de que se leve boa parte do Rio Amazonas, em tubulões, para o Nordeste.
"Receio que os tubulões do ex-prefeito sejam insuficientes para fazer uma transposição em regra, mas há o recurso aos canais a céu aberto, com as respectivas obras-de-arte, quando necessárias. O que não tem sentido é deixar o Amazonas despejando aquela montoeira de água no Atlântico, quando faz muita falta numa larga parcela do nosso território.
"Talvez fosse o caso de bombear parte do Amazonas para o alto de uma serra, de onde a água pudesse descer por gravidade. Nos muitos anos em que morei na roça, aprendi que as forças gravitacionais são da maior confiabilidade. Despropósito seria desviar uma parte das águas do Velho Chico, que não vai lá das pernas. O Amazonas, ao contrário, tem água para dar, vender e irrigar milhões de quilômetros quadrados.
"Espíritos mesquinhos, mais miudamente informados sobre os problemas da física, podem argumentar que o encaminhamento das águas do Amazonas para o alto de uma serra, de onde possam chegar ao Nordeste animadas pelas forças gravitacionais, demanda energia para o bombeamento.
"Aí é que entra o talento do inventor. Não sei como são os ventos na Amazônia, para que se possa pensar na energia eólica, mas cabe a pergunta: que tal a energia solar? Em última análise, a energia nuclear daria conta do recado, com uma vantagem sobre as usinas de Angra dos Reis: em caso de vazamento, só haveria risco para meia dúzia de botos, uns tantos papagaios e um casal de onças viageiras, bichos que andassem por perto dos reatores. Nada que se possa comparar aos acidentes de Chernobyl e Three Mile Island."
CB, 22/01/2008, Pena Capital, Caderno C, p. 6
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