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Transporte dificulta competicao internacional

OESP, Especial Exportacao, p.H8
29 de Jun de 2004

Transporte dificulta competição internacional
Meios de escoamento são insuficientes para acompanhar crescimento das vendas externas
RENÉE PEREIRA
O aumento das exportações nos últimos meses tornou visível a fragilidade da infra-estrutura do transporte brasileiro, que se transformou numa ameaça ao sucesso das vendas externas.
Há problemas por todos os lados: as estradas estão em péssimas condições, as ferrovias não têm capacidade suficiente de transporte e os portos não conseguem atender à demanda cada vez mais crescente. O problema é que houve um descompasso entre o rápido crescimento do comércio exterior e a falta de planejamento e investimento na infra-estrutura.
Da década de 70 até os dias atuais, as exportações cresceram de 50 milhões de toneladas para 250 milhões de toneladas, segundo dados da Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib). Enquanto isso, a infra-estrutura não cresceu.
Resultado disso foi o aumento do custo do transporte, que pesa cada vez mais no bolso das companhias exportadoras e prejudica a competitividade do produto nacional. Da porta das fábricas para dentro, o trabalho de redução de custo tem se mostrado bastante eficiente. Mas da porta para fora representa uma "dor de cabeça" para os produtores.
Os problemas começam nas rodovias. Segundo a Associação Nacional do Transporte de Cargas (NTC), cerca de 80% das estradas brasileiras são classificadas como deficientes, ruins ou péssimas. Além disso, a maioria da frota de veículos tem idade média que beira os 18 anos, conforme dados do Centro de Estudos em Logística (Cel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Junta-se a isso, a falta de regulamentação no setor. Os profissionais acabam dirigindo mais de 24 horas sem descanso e com excesso de cargas, inadequadas às condições de conservação das estradas. Tudo isso acaba tendo reflexo no custo do frete, que tem seguros cada vez mais altos para as empresas.
Filas - Para completar o quadro de deterioração, ao chegar aos portos os caminhões são obrigados a esperar em enormes filas para descarregar as mercadorias. Apesar de o País contar com 30 portos marítimos, as empresas privilegiam terminais cuja logística representa menor custo para o produto, como Paranaguá, no Paraná, e Santos, em São Paulo.
Os principais problemas são: acesso restrito aos portos, com estradas precárias e poucas ferrovias, falta de infra-estrutura adequada para os navios atracarem, falta de equipamentos e terminais de armazenamento insuficientes para a demanda crescente. A situação precária da infra-estrutura brasileira se traduz em rodovias congestionadas e demora no embarque das mercadorias.
Problema que tira o sono dos produtores de café. Segundo o diretor do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CeCafé), Guilherme Braga, os atrasos no embarque das mercadorias têm afetado um número cada vez maior de produtores.
Nesse caso, a dificuldade está na falta de contêineres para exportar o produto. "Nunca tivemos esse tipo de problema. Mas nos últimos três meses, tem sido constante."
Braga teme que a situação se agrave no segundo semestre, quando as exportações de café chegam a 55% do volume vendido. Ele afirma que o aumento do comércio exterior de soja acabou sobrecarregando o sistema. Produtos que eram transportados por navios graneleiros, como açúcar, madeira e ferro gusa, passaram a usar contêineres. "Com isso, temos de aguardar a disponibilidade de frete, o que eleva nossos custos." Para Braga, o Ministério dos Transporte precisa solucionar essa questão.
O setor cerâmico também sofre com os efeitos da falta de infra-estrutura do País. Segundo o diretor-superintendente da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimento (Anfacer), Antônio Carlos Kieling, desde meados de 2003, a indústria tem tido dificuldades para embarcar seus produtos com destino ao exterior. Ele explica que as mercadorias chegam a ficar até 20 dias estocadas nos terminais portuários até serem embarcadas nos navios. "O volume de exportações aumentou e o número de navios com escala no Brasil diminuiu."
Para Kieling, a rota brasileira ficou pouco atrativa por causa da ineficiência dos porto; brasileiros. "Ha dificuldade; de atracamento dos grande; navios, por causa da profundidade do calado, e as greves são freqüentes", analisa ele. Além disso, o aumento do comércio exterior asiático também contribuiu para deslocar a roto das empresas marítimas. Outro problema é o baixo volume de importação, o que tem reduzido o número de contêineres nos portos.
"O problema é que os compradores não entendem todo esses problemas e estamos começando a perder contratos' alerta Kieling. Hoje o setor cerâmico exporta 20% da produção e a expectativa é chegar 25% até o final deste ano. Apesar das dificuldades, a meta para os próximos quatros anos atingir 40% do volume produzido no País. "Mas precisam modernizar o sistema de logística, simplificar os procedimentos de exportação e melhorar qualificação das pessoas que operam nos portos."

Ferrovias não dão conta da demanda
Modalidade responde por 24% do transporte. Projeto de revitalização propõe 35% até 2008
O aumento das exportações também colocou em evidência a falta de capacidade das ferrovias - responsáveis por 34% da matriz do transporte brasileiro. Além da expansão, é preciso investir em obras para aumentar a segurança do sistema e a velocidade dos trens, sinalização, construção de viadutos e remoção de favelas às margens dos trilhos.
Como as estradas de ferros foram construídas há muitos anos, as cidades foram crescendo ao seu redor, afirma o diretor-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Rodrigo Vilaça. "Isso faz com que trens reduzam sensivelmente a velocidade nesses trechos", afirma ele, ressaltando que, apesar disso, o número de acidentes continua alto.
O projeto de revitalização das ferrovias do governo federal prevê elevar a participação das ferrovias dos atuais 24% para 35% até 2008. Para isso, será necessário investir cerca de R$ 12 bilhões, sendo parte da iniciativa privada e parte do governo federal. A previsão das concessionárias é investir cerca de R$ 7 bilhões no setor nos próximos cinco anos, sendo R$ 3,5 bilhões na aquisição de locomotivas e vagões.
Cerca de R$ 2 bilhões serão injetados no setor ainda este ano, criando novos terminais de armazenamento e desvios ferroviários para atender grandes companhias. As obras devem contribuir para aumentar a velocidade das locomotivas de 5 quilômetros por hora para 25 km/h e 30 km/h e reduziria o fluxo de caminhões nas estradas em 36 mil veículos.
Outros R$ 5 bilhões estão previstos para expandir a malha ferroviária, mas deverão sair da Parceria Público-Privada (PPP), programa do governo em votação no Congresso. Depois de conhecer o fundo do poço nos últimos 30 anos, o setor ganhou visibilidade e importância graças ao aumento das exportações e ao "boom" do agronegócio. Mas muito precisa ser feito para recuperar o tempo perdido.
A partir da década de 50, no governo do presidente Juscelino Kubitschek, os investimentos no setor de transportes foram transferidos às rodovias para incentivar a indústria automobilística, formada por empresas estrangeiras, como Volkswagen, Ford e General Motors. Aos poucos, as rodovias foram se tornando mais modernas, os veículos, baratos, e os trens, lentos e obsoletos. (R.P.)

OESP, 29/06/2004, p. A8

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