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Tragédias anunciadas

O Globo, Opinião, p. 11
Autor: AGUIAR, Maciel de
05 de Jan de 2014

Tragédias anunciadas

Maciel de Aguiar

A visita da presidente Dilma Rousseff ao Espírito Santo pode ser considerada um fato histórico: nenhum presidente da República visitou as terras capixabas na véspera de Natal, sobretudo diante de um "cenário devastador".
No entanto, o que foi visto pela presidente é a confirmação de uma tragédia anunciada. O naturalista Augusto Ruschi, há meio século, previu essa calamidade em razão do desmoronamento de barreiras provocado pelo desmatamento das encostas e, sobretudo, as inundações das cidades em virtude do assoreamento de rios e córregos, além do desordenamento da ocupação do solo urbano.
Da década de 1950 aos anos de 1980, Ruschi se rebelou contra o establishment diante da destruição da Mata Atlântica para a implantação de grandes projetos capitaneados pelas transnacionais poluidoras. E até ameaçou invadir o Palácio Anchieta.
Na ocasião, ele alertava para o perigo das chuvas, mas não foi ouvido. Ao contrário, foi combatido pelo governo do estado.
Nesse período, muitos capixabas instalaram centenas de serrarias e tomaram de assalto o Sul da Bahia, derrubando toda a Mata Atlântica até Itamaraju. No rastro do desmatamento, surgiram fazendas de gado e de café, além de vilas e cidades. Virou um cenário de terra arrasada.
Nos últimos 50 anos o território capixaba presenciou a destruição de 90% de suas matas nativas, a devastação das encostas, o assoreamento de rios, as transnacionais poluidoras invadindo o litoral, a monocultura do eucalipto, o desordenamento do solo e o desrespeito oficial para com o meio ambiente. Assim, a natureza foi assassinada onde ela era mais exuberante.
Na véspera do Natal de 2013, o Espírito Santo foi vitimado por sua mais recente calamidade, segundo a mídia "provocada pelas chuvas". As notícias dos mortos e desabrigados fizeram a presidente Dilma Rousseff sobrevoar o local da tragédia, anunciada há meio século, e afirmar: "Nunca vi uma situação tão grave."
Alguém poderia lhe repetir as palavras do sábio naturalista: "No futuro, a responsabilidade por várias mortes em decorrência das chuvas será do governo do Espírito Santo, que vai transformar o estado em inúmeras tragédias."
A presidente perdeu a oportunidade de solicitar ao governador Renato Casagrande mais responsabilidade na proteção de encostas, matas, restingas e mananciais.
Além disso, podia exigir mais compromisso ambiental na gestão das cidades. Lamentavelmente ela ficou sem conhecer a verdade das causas da tragédia e, principalmente, sem saber que mortes e perdas poderiam ser evitadas.

O Globo, 05/01/2014, Opinião, p. 11

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