JB, Informe JB, p.A6
Autor: RIBEIRO, Belisa
14 de Abr de 2004
Tragédia indígena
Mau fado, desgraça, infortúnio, os significados da palavra que deu nome à mais antiga forma de teatro descrevem o fato. O sentido original, não. Tragoidía, em grego, designava obra de caráter grandioso, dramático e funesto, em que intervinham personagens ilustres ou heróicas, e que era capaz de infundir piedade. O que aconteceu a 15 caiapós semana passada, voltando da capital à sua aldeia no Norte de Mato Grosso, nada tem de grandioso. Nem eram eles ilustres, pelo menos entre as autoridades federais, de quem receberam seqüência de nãos a pedidos de recursos para comprar comida, suas roças devastadas pelas enchentes do fim do verão. Não infundiram piedade, mas se transformaram em drama funesto. O pequeno ônibus que alugaram com apoio de comerciantes de Colíder, cidade mais próxima de sua reserva, foi colhido na estrada por uma carreta. Todos morreram. Tinham entre 28 e 30 anos e se formavam como lideranças de 13 aldeias onde vivem cerca de 3 mil índios. Entre eles estava o filho do cacique Raoni que, correndo mundo, conseguiu apoios como o do presidente francês Jacques Chirac que ainda garantem alguma verba à produção de castanha, pequi e cupuaçu da tribo.
Há 20 anos acompanhando a etnia, Zeca Borges, depois de tentar ministérios sem sucesso, encaminhou o grupo à Frente Parlamentar de Defesa dos Povos Indígenas. A orientação dos deputados foi de que o pedido fosse feito por ofício. O antropólogo lembra que a língua caiapó não tem escrita. Sabe que a Funai teve orçamento reduzido, mas esperava que enviasse ao menos pêsames a Megaron - chefe político dos mortos que, desmentindo as peças de IV a.C., nem viraram heróis. Os caiapós continuam à mingua.
JB, 14/04/2004, p. A6.
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