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Autor: Jaime Brasil Filho
24 de Set de 2011
Novamente alguns políticos e agentes do agronegócio levantam a bandeira de uma possível "revisão" (?) da solução dada pelo STF à Terra Indígena Raposa-Serra do Sol.
Já escrevi sobre as afirmações levantadas pela grande mídia e sabemos que a opinião da grande imprensa nunca foi e jamais será isenta, sabemos que ela está a serviço do grande capital da qual ela também faz parte. Mas se o negócio é revisar, vamos lá.
Alguém pode me apontar, ao revermos a história, algum grupo indígena que pleiteou a sua separação do país em que vive? Alguém conhece algum grupo indígena separatista, que queira romper laços com o Estado nacional? Eu não. E alguém conhece outros grupos que tentaram se separar de seus países ou que esquartejaram seus países para tentar preservar os seus interesses? Eu, sim.
Não existe um país mais indígena na América do Sul do que a Bolívia. E quem quis separar enormes áreas de terras ricas e produtivas do resto do país? Eu digo: foram os ricos da região de Santa Cruz de La Sierra. Lá onde está o precioso gás, e onde há várias indústrias, os ricos se uniram há uns dois anos atrás querendo a separação da província de Santa Cruz do restante da Bolívia. Curioso, não é? Não foram os índios que ameaçaram a soberania da Bolívia, foram os ricos. No Brasil, ouvimos falar de grupos separatistas, mas eles não estão em Roraima e sim no sul do Brasil, e se eu não me engano eles não são índios.
De resto, caros leitores, toda a chamada América espanhola foi esquartejada quando da guerra de libertação, de independência, não pelos índios que lá viviam, mas sim pelos poderosos donos de terra e oficiais de alta patente que viam na separação mais vantagens para eles próprios, e assim naufragou um dos grandes sonhos de Bolívar, traído por alguns dos seus oficiais e por latifundiários oligarcas.
Pois bem, em Roraima, tenta-se criar um falso debate, ou melhor, um debate com falsas premissas. A primeira falsidade é vincular a má situação dos que foram obrigados a sair da TI-RSS com a demarcação em área contínua. Ora, se o Estado brasileiro tinha( e ainda tem) uma dívida histórica em relação aos índios, também a tem com a maioria do povo brasileiro, ou seja, a situação dos chamados "desintrusados" poderia melhorar muito com uma ação estatal eficaz, inclusive parlamentar, para compensá-los de maneira justa. A segunda falsa premissa, na minha opinião, é tentar associar o retorno de arrozeiros e fazendeiros para a área com uma possível melhora na qualidade de vida da maioria de índios e não índios. O que os fazendeiros e arrozeiros fizeram para melhorar a vida do povo em geral quando estavam lá?
Assim, penso que a solução para a questão das injustiças cometidas e do abandono é uma, pôr o Estado para honrar seus compromissos e fazer valer a cidadania de todos.
Penso que por trás de certas propostas da maioria desses "revisores" está apenas o interesse privado de auferir mais ganhos, valendo-se do discurso de defender o bem comum.
Roraima está inviabilizada, isto é verdade, mas a causa é a corrupção e omissão dos órgãos estatais responsáveis. Quer provas disso? Leia a Folha de Boa Vista diariamente.
Se o problema é mais terra para a produção, alguém responda: o que está sendo feito com as terras disponíveis?
Quem tem mais capacidade de ameaçar a soberania nacional: os grupos estrangeiros com terras em faixas de fronteira em Roraima, ou os índios que sempre estiveram lá e que, aliás, ajudaram a defender o solo brasileiro tantas vezes?
Dizer que a TI-RSS, tal como a temos, é ofender os interesses nacionais é insinuar que os índios que estão lá não são confiáveis. Mas não foram os índios que diante de situações adversas ameaçaram se mudar para a Guiana, quem se lembra disso? Afinal, o que muitas dessas pessoas querem é proteger o interesse nacional ou os seus interesses particulares? Querem proteger a nação ou o bolso?
Há um outro componente subjacente, e muito perigoso, por trás de todas essas polêmicas que é o racismo. O discurso dominante, durante décadas, colocou o índio como alguém não merecedor dos direitos mais básicos como à terra, por exemplo, e isto sob as mais absurdas alegações de discriminação racial e cultural. Isto , sim, deveria ser objeto de preocupação dos nossos políticos. Que tal que eles façam projetos para viabilizar campanhas institucionais e publicitárias para desfazer o profundo preconceito que a população não indígena nutre para com os índios?
Termos uma sociedade mais humana e justa, com igualdade de direitos e oportunidades. Talvez essa, sim, fosse uma bela e benfazeja "grife" para os nossos governantes.
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