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Tesouro verde

Isto E, Ciencia, Tecnologia & Meio Ambiente, p.120-121
15 de dez de 2004

Clima
Tesouro verde
Apesar de ser um grande poluidor, Brasil recebe créditos por gerar energia a partir do lixo
Celina Côrtes
Em 2003, uma empresa da Baixada Fluminense resolveu transformar o lixo em fonte de energia. A Nova Gerar implantou a Central de Resíduos de Nova Iguaçu, aterro sanitário que canaliza o gás produzido, em vez de lançá-lo na atmosfera. Com o aumento do volume de resíduos, o projeto terá capacidade de gerar nove megawatts de energia, o suficiente para iluminar o município de Nova Iguaçu, com 900 mil habitantes. O gás é aproveitado como combustível na caldeira que processa o chorume, líquido tóxico proveniente da decomposição do lixo.
Ao custo de US$ 600 mil, o projeto começou em 2000, demorou para ser aprovado, mas virou o primeiro no mundo a receber créditos de carbono. Esses créditos são um benefício dado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) às iniciativas que reduzam a emissão de gases tóxicos na atmosfera. O MDL foi criado pelo Protocolo de Kyoto, em 1997, e determina que os países desenvolvidos que não reduzirem a emissão de gases de efeito estufa poderão comprar os créditos de MDL de países que os possuem. O primeiro acionista da iniciativa fluminense é o governo holandês, que deve comprar o equivalente a 2,5 milhões de toneladas de carbono durante dez anos, a 3,35 euros por tonelada. Há um boom de projetos nas áreas de resíduos sólidos, indústrias petroquímicas e suinocultura”, diz Werner Koernex, diretor de meio ambiente do Banco Mundial.
O ineditismo se deve sobretudo à ousadia. Acreditamos em algo que ninguém acreditava”, diz a engenheira ambiental Adriana Felipetto. A Nova Gerar foi montada pela S.A. Paulista, empresa de construção pesada, e pela Ecosecurities, de consultoria ambiental. O pagamento dos créditos é feito conforme o resultado das medições. Para ser aprovado, a soma final é submetida a uma auditoria contratada pelo Banco Mundial. Segundo Marco Antonio Fugihara, diretor da consultoria PriceWatherhouse, de janeiro a maio deste ano foram iniciadas negociações envolvendo 64 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2), mas a primeira concretizada é a de Nova Iguaçu. Os maiores interessados são a Europa, o Japão e o Canadá.
Para certificar o projeto, a empresa foi submetida ao colegiado da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e ao crivo da Comissão Interministerial de Mudança do Clima, coordenada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A concessão da Prefeitura de Nova Iguaçu, que recebe um porcentual do que entra na central de resíduos – inclusive os créditos de carbono –, é de 30 anos. As empresas particulares pagam entre R$ 60 e R$ 150 por tonelada para processar seu lixo no local. Com 550 mil metros quadrados, o aterro recebe 1,5 mil toneladas de resíduos secos por dia, provenientes de coleta seletiva. O terreno é coberto por duas camadas de argila. Entre a argila e o lixo é montada uma rede de drenagem que capta o gás e o chorume. O biogás formado pela decomposição é canalizado, e não queimado, como ocorre nos aterros sanitários. O diferencial é computado nos créditos de carbono.
Se o Brasil sai na frente na certificação de um dos principais instrumentos de controle de poluentes, ainda deixa a desejar na proteção de suas florestas, segundo o inventário (leia quadro) apresentado na 10ª Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP-10), que vai até o próximo fim de semana em Buenos Aires. As manifestações de ecologistas durante o evento deixaram evidente que os EUA continuam a ser o grande vilão. O país se recusa a assinar o Protocolo de Kyoto, que estabelece metas para reduzir as emissões dos países desenvolvidos entre 2008 e 2012.
A partir de fevereiro, o protocolo entra em vigor. Aí a briga deve ficar feia para os países em desenvolvimento, como Brasil, China e Índia, listados entre os dez maiores poluidores do mundo. Na primeira rodada de negociações, essas nações ditas pobres ficaram de fora do compromisso de reduzir as emissões. Como seu índice de poluentes aumentou, tudo indica que a pressão internacional deve aumentar, e muito, no futuro

Gangue da fumaça
Agora é oficial. As mais importantes fontes brasileira de emissão de dióxido de carbono, o CO2, são as queimadas e o desmatamento: chegam a 77% do total. O Primeiro Inventário Brasileiro de Gases de Efeito Estufa, de 1990 a 1994, revela que o País foi responsável por 3% das emissões mundiais, tornando-se um dos dez maiores poluidores do mundo. Falta uma política pública para coibir esse processo” diz o físico Luiz Pinguelli Rosa. As emissões passaram de 979 milhões para 1,03 bilhão de toneladas, aumento equivalente a 5% de aumento. Destruímos recursos naturais sem gerar riquezas na mesma proporção”, diz Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A queima de combustíveis fósseis, usados no transporte e na indústria, também aumentou.
Há ainda a participação da flatulência bovina nas emissões de metano e de óxido nitroso. O País possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 180 milhões de cabeças. O processo industrial e a energia foram responsáveis por 23% das emissões de gás carbônico.

Vilões mundiais
Os países que mais poluem em milhões de toneladas de gás carbônico (CO2):
5.272 1o Estados Unidos
2.960 2o China
1.660 3o Rússia
1.200 4o Japão
1.030 5o Brasil
861 6o Índia

Aumento de tudo
O Brasil responde por 3% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, os responsáveis pelo aquecimento global
Entre 1990 e 1994, o País emitiu 1,03 bilhão de toneladas de gás carbônico (CO2)
Os maiores vilões, com dois terços do CO2 emitido, foram as queimadas e o desmatamento, boa parte na Amazônia
A agropecuária, e a flatulência dos bois em especial, foi responsável pela maior emissão de gás metano (CH4) e de óxido nitroso (N2O)

Isto É, 15/12/2004, p. 120-121

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