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Tese americana de cada país por si sai fortalecida do Rio

O Globo, Especial, p. 4
Autor: SILVA, Marina
22 de Jun de 2012

Tese americana de cada país por si sai fortalecida do Rio
Para ex-ministra, multilateralismo se enfraqueceu em conferência, e a bola de promover iniciativas concretas para salvar planeta foi devolvida para a sociedade

Entrevista: Marina Silva

Fernanda Godoy
fgodoy@oglobo.com.br

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva chegou vestida de preto ao Riocentro para um debate com jovens na Rio+20, do qual participaram o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, os economistas Muhammad Yunus e Jeffrey Sachs, e o fundador da CNN, Ted Turner. Marina disse que o processo multilateral foi enfraquecido, e que a tese americana de acordos genéricos, sem compromissos, prevaleceu, 20 anos depois da Rio 92. Para ela, a "bola foi devolvida para a sociedade".

O GLOBO: Como a senhora avalia a reação da sociedade civil ao resultado da Rio+20?

MARINA SILVA: A sociedade está sendo muito clara com a sua insatisfação. E os próprios líderes que tomaram a decisão se revezam para dizer que o documento não é suficiente, mas que abriram mão do que deveria ser feito para atingir um consenso. Ou seja, houve um consenso em torno de algo que não agradou a nenhum deles, por que + agradar e atender à sociedade civil?

O que a sociedade fará com o sentimento de que os governos não estão à altura da crise? A senhora esteve em um evento com jovens, o que dizer para eles?

MARINA: A gente tem que ter um recado é para nós mesmos. Esse é um esforço que tem que ser de todos, de toda a Humanidade. Não é justo que a gente coloque nos ombros dos jovens o peso de dar conta do seu próprio futuro. Temos que ser o suporte dessa luta. É muito fácil termos feito tudo que inviabiliza o futuro e agora dizer para os jovens que, se querem um futuro, que lutem por ele. Acho que nós temos a responsabilidade de lutar com eles, não para eles nem por eles. O que a sociedade aprendeu aqui é que ela está com a prerrogativa, como sempre esteve. Em todos os momentos em que quase colapsamos, é para ela que a bola foi devolvida.

A senhora vê a Rio+20 como um momento em que a bola está sendo devolvida para a sociedade?

MARINA: Acho que o mais grave é a dissolução do processo multilateral nesse esforço de dar conta da agenda ambiental global. Por 20 anos quem insistia nessa tese de que cada um deveria fazer o seu esforço internamente, com parcerias bilaterais, eram os EUA. Do ponto de vista prático, a tese americana prevaleceu. Todos fizeram um acordo genérico em torno de objetivos que cada um cumprirá dentro de suas agendas internas.

A senhora acha que o multilateralismo saiu derrotado? E qual será o caminho do movimento ambientalista depois disso?

MARINA: Eu não diria que ele foi derrotado. Diria que foi enfraquecido, e a tese americana, fortalecida. Cada país vai fazer seus esforços, mas adiou-se o compromisso de financiamento e decidiu- se que a governança não será forte como as que temos para outras questões, exatamente para fortalecer essa tese de que cada um fará internamente a sua parte, de acordo com os interesses da sua própria agenda, e não mais dentro de uma agenda de compromisso multilateral como vinha sendo perseguido por mais de 180 países que ratificaram a convenção do clima, da biodiversidade. Os EUA nunca ratificaram nenhuma dessas convenções e sempre insistiram na tese de que o certo era ter objetivos genéricos. Eles ficaram 20 anos sendo constrangidos e agora, pela primeira vez, saíram todos unidos assinando um texto em que prevalece essa tese. O interessante é que a sociedade agora, já que não tem como fazer ruptura numa coisa dessa magnitude,não tendo como esperar por uma transição, porque o planeta já está no vermelho em 50%,terá que trabalhar urgentemente por uma mutação. As empresas, os cidadãos, terão que ver como traduzem isso para sua prática de vida, em todos os setores.

O Globo, 22/06/2012, Especial, p. 4

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