O Globo, Opinião, p. 23
Autor: AZEVEDO, Tasso
12 de Set de 2012
Terra de índio
Devemos ter orgulho das raízes indígenas do país, bem como ver sua contribuição para a nossa identidade cultural
Tasso Azevedo
Meu bisavô Elpídio, pai de minha avó Cecy, fotógrafo em Minas, era extremamente interessado na história de nossas origens. Com ajuda de um historiador pesquisou por anos, na década de 50, para construir a árvore genealógica da família. Fuçando em registros nos cartórios, igrejas, bibliotecas e toda sorte de documentação que pôde encontrar chegou até o português João Ramalho e Índia Bartira. João Ramalho chegou ao Brasil de forma desastrosa em 1513, depois de um naufrágio na costa. Foi salvo pelos índios guaianás e acabou casando com a filha do cacique, com quem teve nove filhos. Contava esta história dizendo orgulhoso: somos descendentes das origens da miscigenação brasileira. Temos sangue de índio, e guaianá!
Biso Elpídio era um ponto fora da curva. Em geral, no Brasil, ao perguntar sobre a ascendência de alguém, na ponta da língua estão as linhagens estrangeiras brancas ou asiáticas, em muitos casos com detalhes da região dos países de onde veio a família. A ascendência africana e indígena é sempre referenciada de forma genérica. É raro encontrar quem identifique região ou mesmo a língua original da ascendência indígena.
No Brasil, a era pré-1500 é um detalhe que cabe num par de aulas de História. O índio é caracterizado como um ser menos desenvolvido que precisa ser tutelado pelo Estado. Não se criam vínculos e não se promove a identificação cultural com a população indígena.
Esta incompreensão e a falta de identidade geram um campo fértil para propalar ideias batidas como "índio é preguiçoso" ou "tem muita terra para pouco índio", que voltam à tona numa nova onda, agora mais forte do que nunca na esteira da desfiguração do Código Florestal, para restringir o reconhecimento e o exercício dos direitos indígenas.
O argumento simplista é que as terras indígenas ocupam 13% do território nacional e a população indígena não chega a 0,5% da população total. Trocando em miúdos, são 800 mil índios em pouco mais de 100 milhões de hectares (98% na Amazônia). Mas uma análise rápida dos dados do IBGE mostra que 67 mil grandes proprietários de terra detêm 195 milhões de hectares.
Quando observamos dados de conservação e proteção dos recursos naturais percebemos o serviço que prestam as terras indígenas ao Brasil. Na Amazônia foram desmatados, até 2009, 75 milhões de hectares (o equivalente a toda área ocupada pela agricultura no país), o que representa 18% da Amazônia. Nas áreas protegidas (unidades de conservação e terras indígenas) a área desmatada é de 1,5%, e nas áreas não protegidas o percentual vai a 25%. Nas terras indígenas o desmatamento é menor, até do que nas unidades de conservação (1,56% contra 1,63%).
Precisamos ter orgulho de nossas raízes indígenas e reconhecer a contribuição que eles dão para nossa identidade nacional e para a proteção dos recursos naturais que sustentam a nossa vida.
Tasso Azevedo é engenheiro florestal.
O Globo, 12/09/2012, Opinião, p. 23
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