OESP, Vida, p. A20
Autor: GADELHA, Paulo
04 de Nov de 2008
Teremos papel estratégico de Estado
A descentralização da instituição e a exploração da biodiversidade para a produção de fármacos são as prioridades do médico
Entrevista: Paulo Gadelha novo presidente da Fiocruz
Fabiana Cimieri
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), principal instituição de saúde pública vinculada ao governo federal, tem novo presidente. O médico Paulo Gadelha, de 57 anos, vai substituir o sanitarista Paulo Buss. Ao Estado, afirmou que fará gestão alinhada à de seu antecessor. A prioridade continuará a ser a descentralização, com a construção de unidades no Centro-Oeste, Norte, Nordeste e na África. Pretende ainda dar mais ênfase na pesquisa de fitofármacos (princípios ativos extraídos de plantas) e implementar, com o Ministério da Saúde, programa de avaliação tecnológica para atualizar a lista de procedimentos e medicamentos custeados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Quais serão suas prioridades?
É a continuidade de um movimento forte: fazer a Fiocruz desempenhar papel estratégico de Estado, tanto na política nacional de desenvolvimento quanto internacionalmente. O País ainda tem muita dependência de insumos do exterior. Estamos ainda no estágio da importação de tecnologia, mas a possibilidade do licenciamento compulsório (de drogas) para desenvolvimento social foi um avanço.
Como é esse papel internacional da Fiocruz?
A idéia é sermos um braço dos ministérios da Saúde e das Relações Exteriores, acompanhando as prioridades ligadas ao processo de globalização da saúde, à geopolítica, diversificação de mercado e também à solidariedade em relação às áreas que têm história e cultura próximas, nas quais a presença do Brasil faz diferença.
O que está sendo feito na África?
Abrimos escritório em Maputo (capital de Moçambique) e estamos prestando consultoria para adaptação das instalações da fábrica de medicamentos que o governo moçambicano comprou. Vamos exportar anti-retrovirais e outros medicamentos para doenças negligenciadas. A idéia, depois, é transferir a tecnologia para eles. A mesma coisa está ocorrendo com a União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Em reunião recente de ministros da Saúde no Chile, decidimos que a Fiocruz será um dos pontos focais para estudos epidemiológicos na região.
Quais os avanços nas trocas relacionadas à saúde?
O programa de aids brasileiro é reconhecido pela OMS e nosso modelo de banco de leite está sendo adotado na América Latina e Europa. Antes, éramos basicamente receptores. Hoje continuamos receptores, mas somos também doadores e parceiros.
Quais os planos para o País?
Estamos criando novas unidades em Mato Grosso do Sul, Rondônia e no Nordeste. São áreas que envolvem questões como saúde nas fronteiras, biomas, saúde indígena. Trabalhar com essa tríade de saúde, ambiente e desenvolvimento é um salto no papel da Fiocruz.
Esse salto inclui novos campos de atuação?
A Fiocruz tem tradição na área de doenças infecciosas e vem se adaptando para a mudança do perfil epidemiológico, aumentando pesquisas sobre aids, hipertensão e outras doenças ligadas ao envelhecimento.
Existe alguma área em que a Fiocruz queira investir mais?
Biodiversidade. Boa parte dos novos medicamentos são princípios ativos de produtos naturais. Outra área carente é a de avaliação tecnológica para incorporação de novos equipamentos e protocolos de tratamento. Hoje o SUS se ressente pela judicialização (do fornecimento), muitas vezes com gastos irracionais. Não existe um sistema maduro no País para fazer essa triagem e definir o que deve ou não ser incorporado e em que condições. F.C.
OESP, 04/11/2008, Vida, p. A20
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.