CB, Brasil, p. 19
01 de Jun de 2008
Tensão cada vez maior
Desde o início da crise na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, pelo menos 40 conflitos indígenas já foram registrados em vários estados, inclusive fora da Amazônia Legal.
A tendência é o acirramento crescer, avaliam organizações indígenas e a própria Fundação Nacional do Índio (Funai).
O motivo principal é a expansão das fronteiras agrícolas e o questionamento de direitos conquistados pelas minorias na Constituição, além da ausência do governo em áreas estratégicas, afirmam.
Em meio ao acirramento, ganha corpo uma troca de acusações entre ONGs ambientalistas, políticos, militares, fazendeiros e até grupos tachados de ultradireita. "Estamos numa mobilização indígena histórica. Estamos sob muita pressão por causa do avanço das fronteiras agrícolas, madeireiras e mineradoras. Se o Supremo liberar a Raposa para o agronegócio, nossas terras serão questionadas. Querem tirar o que conquistamos em 1988", afirmou o coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Jecinaldo Sateré Maué, ou Gãp Wasay para os indígenas. "Há uma articulação para tirar nossos direitos e nossas terras, por isso temos reagido", disse Manoel Uilton Santos, ou Uilton Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Cerca de 200 projetos de lei tramitam no Congresso para mudar direitos indígenas. Irritam os índios as obras públicas de impacto próximas a reservas como a do Xingu, a precariedade dos serviços de saúde oferecidos pela Funasa, a lentidão da Funai e, ainda, um total de 17 assassinatos de indígenas somente este ano, principalmente em áreas de conflito.
Vozes como a do governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), afirmam que, por trás dos protestos indígenas, estariam ONGs estrangeiras e brasileiras aliadas a grupos e até governos estrangeiros. "Não há intenção de acabar com as reservas, mas criar áreas mais justas.
De que adiantam essas extensões de terras indígenas sem recursos?
Sou a favor de uma revisão nacional", assinalou o governador de Roraima. O país tem hoje 488 terras indígenas (nem todas regularizadas), com 105.673.003 hectares, equivalentes a 12,41% do território nacional. Segundo o Censo, o país tem 730 mil indígenas, 460 mil em reservas, além de 63 tribos nunca contatadas.
Organizações como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), da Igreja Católica, e o ISA (Instituto Sócio Ambiental), que apóiam indígenas, são acusadas de incitá-los a episódios violentos, como o dos caiapós em Altamira (PA), onde um engenheiro da Eletrobrás foi atacado. "As ONGs têm acirrado muito, e a questão da soberania é muito séria", destacou o governador de Roraima.
O Cimi, por sua vez, denuncia que está em curso uma rearticulação de extrema direita, ligada a militares da reserva e a grupos econômicos empenhados em acabar com as reservas.
"Querem transformar o índio em camponês pobre ou sem-terra, passando por cima de seu direito à cultura", enfatizou o assessor do Cimi, Paulo Maldos.
CB, 01/06/2008, Brasil, p. 19
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