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A tendência é gerar mais térmicas

O Globo, Negócios & Cia, p. 22
Autor: CHIPP, Hermes; OLIVEIRA, Flávia
11 de Jan de 2011

A tendência é gerar mais térmicas
Diretor do ONS alerta que hidrelétricas sem reservatórios aumentam dependência de usinas a gás, carvão e óleo

Flávia Oliveira

Diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp experimentou episódio inédito no setor em fins de 2010. A economia acelerada antecipou em quatro horas o pico do consumo de energia no país. Simultaneamente, sem parte de Tucuruí, por falta de chuvas, e sem Angra 2, em manutenção. Num dia de dezembro, Chipp ordenou o despacho de sete mil megawatts de geração térmica para o país não apagar. Era o equivalente a meia Itaipu. Ainda assim, ele afasta o risco de apagão. "É praticamente nulo". No momento, Chipp festeja as chuvas que elevaram o nível dos reservatórios do Sul. E alfineta o modelo de hidrelétricas a fio d'água, que exige oferta completar de energia das térmicas.

Como está a oferta de energia?

Hermes Chipp: 0 Sul estava em novembro com 30% de armazenamento. Hoje, está com mais de 70%. Aquela situação nos obrigava a mandar energia para lá. Agora, o Sul está mandando energia para cá. Assim, o Sudeste guarda mais e criamos um pulmão para enfrentar adversidades.

Houve algum momento crítico?

HC: No Nordeste, sim. Com alongamento do período seco, foi preciso parar a casa de força 2 de Tucuruí, em dezembro. Foi uma perda de 4.200 MW Esse foi um dos fatores principais que levaram à complementação térmica em fins de novembro e dezembro. Geramos térmica, não por questões energéticas, mas para atender a ponta. O pico veio às 15h30, em vez das 19h.

Sem as térmicas, faltaria energia?

HC: Exatamente. Os fatores que levaram a isso foram a paralisação da casa 2 de Tucuruí, pelo atraso no período úmido; e a indisponibilidade de Angra 2 por manutenção. E teve também o aquecimento da economia.

Mas as térmicas já estavam ligadas.

HC: Sim, mas por outros motivos. A estratégia de curto prazo hoje é ter, no fim do período seco (novembro), o estoque de segurança que garanta o ano seguinte. Se não se atinge o nível de armazenamento necessário, liga-se as térmicas. Isso garante o abastecimento, mesmo na pior escassez. Fizemos isso este ano, mas houve uma surpresa. Pela primeira vez, precisamos de térmicas para atender a ponta.

Houve risco de apagão?

HC: Não. A demanda é um atendimento pontual. É como se houvesse um consumo acima do esperado no horário de pico de consumo e a gente não tivesse potência em megawatts para atender. O apagão, associado ao racionamento, é aquele prolongado, como em 2001. Esse risco é praticamente nulo. Há sobra de energia contratada de quatro mil megawatts ao ano no próximo quinquênio. Isso não basta, porque é um cálculo probabilístico. Então, conjugamos essa indicação com a água (reservatórios).

Foi a estratégia de 2010?

HC: Sim. Usamos um volume de térmicas para atender a meta de estoque de segurança a um custo mínimo. É diferente de 2007/2008, quando despachamos todas as térmicas em dezembro e gastamos R$ 2,5 bi em encargos. Fecharemos 2010 com R$ 550 milhões, por causa dessa metodologia.

Como será 2011 ?

HC: Depende da hidrologia do período seco, de maio a novembro. Mas, à medida que temos dificuldades de construir hidrelétricas com reservatórios, se a hidrologia não vier favorável, a tendência é gerar mais térmicas no período seco. As novas usinas, Jirau, Santo Antonio, Belo Monte, são a fio d'água. Essa é a dificuldade do operador: administrar recursos hidrelétricos menores e usar o mínimo de térmica para reduzir custo.

Hidrelétricas sem reservatórios exigem energia térmica complementar. E um dilema?

HC: Sim. O tema do benefício ambiental das hidrelétricas a fio d'água tem de ser mais bem estudado. Eu prejudico mais o meio ambiente cons-truindo térmicas a gás, carvão, óleo ou permitindo usinas com reservatórios? Há que se ver a questão com mais profundidade para chegar a um ponto de equilíbrio.

Acha que o novo governo vai se ocupar dessa questão?

HC: Sem dúvida, a presidente (Dileta Rousseff) vai discutir esses assuntos com maior profundidade. Precisamos de um ponto de equilíbrio entre meio ambiente e setor elétrico. A expansão da geração e da transmissão têm de atender ao crescimento da demanda.

O Brasil pode crescer 4% ou 5% ao ano sem ter problemas com energia?

HC: Sim. Tem condições de crescer até mais. Graças a Deus, temos recursos (naturais e financeiros) para isso.

O Globo, 11/01/2011, Negócios & Cia, p. 22

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