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Temporada de incêndios florestais ameaça sistemas de saúde sobrecarregados por covid

OESP, Metrópole, p. A16
17 de Jun de 2021

Temporada de incêndios florestais ameaça sistemas de saúde sobrecarregados por covid

Partículas de incêndios na Amazônia permanecem na atmosfera e podem ser transportadas por longas distâncias

Emilio Sant'Anna

Sobrecarregado há um ano e meio pela pandemia de covid-19, o sistema de saúde das regiões Norte e Centro-Oeste precisa se preparar para os efeitos do início da temporada de queimadas. As partículas em suspensão dos incêndios podem ser mais nocivas do que a poluição do ar urbano. O alerta é de um estudo da Global Climate and Health Alliance feito no Brasil, Canadá e na Austrália.

Os incêndios provocados pela ação humana devem afetar a qualidade do ar nas cidades, a até milhares de quilômetros de distância, pois o material particulado, metais vestigiais e gases de efeito estufa podem se dispersar para longe das florestas.

O relatório adverte que, em todo o mundo, os governos devem preparar os sistemas de saúde para os impactos de incêndios recorrentes causados pela aceleração da crise climática, pelo desmatamento e pelo manejo precário da terra.

Na Amazônia, as partículas emitidas pela queima de biomassa permanecem na atmosfera por, pelo menos, uma semana e podem ser transportadas por longas distâncias, afirma o documento. Segundo uma estudo publicado em 2017 na revista Nature, a queima de biomassa na região amazônica causa danos ao DNA e morte celular em células pulmonares humanas.

Dois dos mais importantes biomas brasileiros, a Amazônia e o Pantanal, vêm sofrendo com queimadas recorde desde o início da gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o desmonte sistemático dos órgãos de fiscalização.

Em 2020, a Amazônia teve 103.161 focos de incêndio, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Isso representa aumento de 15,5% em relação a 2019, quando haviam sido registradas 89.176 ocorrências.

A maioria dos focos de incêndios florestais na região é registrada no Arco do Desmatamento que se estende do Pará ao Mato Grosso, e até a área de fronteira entre o Brasil e o Peru e a Bolívia.

Também no ano passado, o Pantanal registrou seu recorde de queimadas, 22.116 casos. Foi o maior número desde que os focos de incêndio passaram a ser medidos nesse bioma pelo Inpe, em 1998. Em relação a 2019, os focos de queimada mais do que dobraram.

Embora os efeitos a curto prazo da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde estejam bem documentados, os efeitos a longo prazo da exposição prolongada ainda são desconhecidos, afirma o estudo.

Doenças e mortes
A fumaça dos incêndios florestais causa cerca de 339.000 mortes prematuras por ano em todo o mundo, muito mais do que aquelas por causa direta, estima um estudo de 2012 realizado por pesquisadores canadenses, norte-americanos e australianos.

A exposição a qualquer aumento da poluição do ar pode causar efeitos adversos na saúde humana, especialmente em crianças, idosos e pessoas com condições médicas crônicas preexistentes.

Os impactos no curto prazo da fumaça dos incêndios florestais incluem tosse e falta de ar. Ela também é um gatilho para episódios de asma e está associada a um aumento no atendimento hospitalar de emergência após um curto período de exposição, particularmente em crianças. Estudos recentes encontraram uma relação com os pedidos de ambulâncias por problemas respiratórios, cardiovasculares e por diabetes.

As fontes de água também podem ser contaminadas pelas cinzas dos incêndios. Os povos indígenas da Amazônia brasileira são particularmente vulneráveis à fumaça porque nessas comunidades há uma alta prevalência de doenças respiratórias evitáveis, como a tuberculose, em comparação com a média nacional.

No relatório da Human Rights Watch sobre a poluição do ar durante as queimadas de 2019 na Amazônia, constatou-se que muitas pessoas tinham acesso limitado às unidades de saúde, portanto os dados sobre o número de pacientes hospitalizados no Brasil só oferecem uma imagem incompleta do impacto dos incêndios sobre a saúde.

Estima-se que quase três milhões de pessoas foram expostas a níveis nocivos de material particulado fino durante os incêndios daquele ano.

OESP, 17/06/2021, Metrópole, p. A16

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