O Globo, Sociedade, p. 29
03 de Mar de 2016
Temperatura de risco
Possível aumento de 4o C no país até 2100 traria ameaças à saúde e perdas na lavoura
"Nenhum país sozinho, com exceção da China e dos Estados Unidos, consegue mudar o quadro global" Carlos Nobre Coordenador do estudo "Queremos mostrar que a adaptação pode ser impossível ou cara. No caso das espécies, não há o que fazer" José Marengo Climatologista
RENATA MARIZ
renata.mariz@bsb.oglobo.com.br
- BRASÍLIA- A probabilidade de aumento de 4 graus Celsius ou mais na temperatura média do Brasil até o fim do século, em relação ao período pré- industrial, é estimada em 30%, com impactos catastróficos na agricultura, saúde, biodiversidade e geração de energia para o país. Um dos possíveis efeitos desse cenário é uma maior proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, chicungunha e zika. As perdas nas áreas de determinadas lavouras, como a da soja, poderão chegar a 81% - sem contar um aumento de cerca de 15% no risco de extinção de espécies no mundo e de 23% no Brasil.
Os dados fazem parte do estudo "Riscos de Mudanças Climáticas no Brasil e Limites à Adaptação", apresentado ontem pelo Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais ( Cemaden) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a Embaixada Britânica no Brasil. O coordenador da pesquisa, o climatologista Carlos Nobre, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ( Capes), afirma que o cenário desenhado, de aumento de 4 graus Celsius ou mais até 2100, é factível, embora pouco estudado:
- Trinta por cento não é uma probabilidade pequena. E, mesmo se fosse pequena, temos que considerar, pois os impactos podem ser muito grandes.
Ele explicou que o estudo é uma revisão da literatura existente que traz a projeção das consequências, destacando que, normalmente, tais pesquisas consideram cenários mais conservadores, de elevação da temperatura média entre 2 e 3 graus Celsius. Ele acrescentou que, no Brasil, a temperatura média no período pré- industrial era de 24,4o C e hoje subiu para 25,4o C. Mas, com as emissões de gases de efeito estufa cada vez maiores em todo o mundo, o aquecimento toma uma velocidade bem maior.
- Nenhum país individualmente, com exceção da China e dos Estados Unidos, consegue mudar o quadro global. O Brasil, isolado, não conseguirá alterar esse quadro - avaliou Nobre.
AUMENTO NA PROLIFERAÇÃO DE "AEDES" O estudo prevê um aumento na proliferação do mosquito Aedes aeg ypti em função do aquecimento global em praticamente todo o país, assinalando que os estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro podem ter uma elevação na epidemia de dengue a partir do ano de 2071, caso a temperatura suba mais de 4,6 o C. Mas Nobre é cuidadoso ao comentar esses dados da pesquisa.
- Não há dúvida que o efeito da temperatura é um dos elementos, mas para saber se haverá epidemia ou não há outros fatores, como saneamento e hábitos da população.
No aspecto da saúde, o relatório aponta um aumento de 150% ou mais nos casos de leptospirose nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina com o cenário projetado de aumento de 4o C na temperatura. Municípios do Norte e Centro- Oeste, além dos estados do Maranhão e Piauí, poderão chegar a uma temperatura média igual ou maior a 30o C - o dobro da média do planeta hoje, o que significa "alto risco para mortalidade". A taxa de morte entre idosos aumentaria 7,5 vezes. Pelas projeções, casos de diarreia poderão aumentar 50% até 2099 entre 64% da população infantil do Norte do país. MENOS SOJA, FEIJÃO E ARROZ Pelos dados do estudo, a perda de produtividade laboral pode chegar a 268 horas anuais nos setores da agricultura, indústria e construção, fortemente impactados pelo aquecimento global no que diz respeito ao desenvolvimento e custos. A previsão de perdas nas lavouras é grande, mesmo em áreas consideradas de baixo risco por causa do clima favorável. Plantações de soja, feijão e arroz podem ter perdas de até 81%, 57% e 13%, respectivamente. Em nível nacional, a tendência é que a lavoura de soja migre para o Norte do estado de Mato Grosso. O milho safrinha - definido pela Embrapa como milho de sequeiro cultivado de janeiro a abril, quase sempre depois da soja precoce, na região Centro- Sul brasileira - ficaria restrito em quase todo o território nacional, segundo o estudo. Determinadas culturas também se restringiriam a regiões irrigáveis ou com bom regime de chuvas.
A biodiversidade é um dos alvos mais frágeis do aquecimento global no nível projetado no estudo. O acréscimo de 4o C ou mais na temperatura média levará ao aumento de 23% no risco de extinção de espécies. Entre as mais ameaçadas, estão as abelhas da Mata Atlântica, essenciais para a polinização das plantas; os frutos comestíveis do Cerrado, com impacto econômico já em 2080; e espécies do litoral.
- Queremos mostrar que a adaptação pode ser impossível ou muito cara. No caso das espécies, não há o que fazer, elas se extinguirão - alerta o climatologista José Marengo, pesquisador do Cemaden.
Para o setor de energia, as projeções também mostram problemas graves. Com um aumento na temperatura de 4o C, as hidrelétricas não conseguirão atender à demanda, que tenderá a crescer, diante do desejo da população de buscar uma vida mais confortável num clima extremo. O estudo aponta ainda que as fontes renováveis, como energia eólica e solar, se tornariam mais importantes neste cenário.
O Globo, 03/03/2016, Sociedade, p. 29
http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/aquecimento-causara-…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.