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TEIA 2014: "Somos diferentes, mas não exóticos", diz hacker indígena

Ministério da Cultura - MinC - www.cultura.gov.br
Autor: Montserrat Bevilaqua
20 de mai de 2014

Anápuáka Tupinambá amanheceu neste segundo dia da programação da TEIA Nacional da Diversidade 2014, em Natal, Rio Grande do Norte, atarefado. Computador, conexões, gravações, trabalhando para registrar tudo que podia sobre o Fórum de Culturas Indígenas. Em debate: o próximo edital da Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC) do Ministério da Cultura (MinC).

Ele nos conta que, antes, era um Ponto de Cultura, e agora é "hacker". Já passou pela Rede de Cultura Digital Indígena e a experiência de levar ao ar a primeira rádio indígena do Brasil. Hoje, documenta tudo o que pode a respeito de mais de 300 etnias indígenas brasileiras em podcasts. Colabora em publicações e, claro, está direto ligado nas redes sociais.

"Fui por muitos anos indiosonline e webbrasilindigena, Rede de Cultura Digital, agora estou mais solto. Sempre passando por fóruns como este", explica. Aos 40 anos, nascido na Bahia, nas terras Caramuru-Paraguaçu, do seu povo os Pataxós-hã-hã-hães, Anápuáka tem uma trajetória de vida que resume como a própria "diversidade".

"Cresci na cultura do meu povo. Somos Tupinambás. Nossos ritos são ligados a Tupã, pai criador. Somos ligados às pinturas. O Tupinambá preza a força. A forma social de viver nos ensina a lutar, sempre! Somos guerreiros. Por isso, também nos interessa tanto e somos mesmo políticos. Uma tradição de líderes", resume o hacker, hoje formado em Gestão e Marketing e para quem tecnologia é um meio, simplesmente instrumento.

Quando fez 13 anos, o pai de Anápuáka o mandou para fora: "eu tinha de estudar, para entender as regras desse mundo que víamos então distante, algo além da nossa cultura". A missão objetiva posta para o jovem guerreiro era "compreender a língua e os instrumentos de luta dos brancos". "Era estratégico para a gente não ser enganados. Tinha que aprender política, economia, comunicação, rádio, televisão."

Essa vivência levou Anápuáka para longe. Foi morar no Rio de Janeiro. Tem quatro filhos. Três indígenas e um que é filho de branca. Este mora na Argentina. "Torce pelo Boca Juniors e pela seleção da Argentina", diz, mais ou menos conformado.

Da experiência que acumulou nesses anos com os homens brancos e tudo o que a era da informação nos traz, Anápuáka divide algumas de suas convicções: "Somos diferentes, mas não somos exóticos e nem queremos que nos vejam assim. Nossa narrativa é feita para quem a gente a conhece. Eu falo com você. Conto a você sobre mim. Já a comunicação que vocês fazem é sempre para informar o outro. Quando se escreve para um índio, você tem de pensar que você está falando com ele, e não dele."

Por essas e outras diferenças, esse hacker Tupinambá passou a se dedicar à comunicação para indígenas. "Cheguei a ganhar um prêmio: "Libertadores da Web da Mozilla Firefox Foundation, e ganhei por conjunto de trabalhos realizados. Confesso que demorei um bom tempo para entender o sentido desse prêmio. Tudo o que eu faço não é por mim nem por eles -apontando o grupo no Fórum de Culturas Indígenas-, mas por todos que lutaram e morreram para eu estar aqui. Pelos ancestrais. Pela nossa cultura. Se a nossa história permanecer, não seremos extintos. "

Para quem se surpreende com a sua história e de tantos indígenas que ao longo dos anos têm transformado seus modos de vida, Anápuáka resume: "Nossa cultura não existe como antes. Pensar que deveria ser assim significa dizer que deveríamos viver isolados do mundo. Imaginou o brasileiro não indígena vestido como os portugueses de 1500?"

Saiba tudo o que acontece na TEIA. Acesse o site da TEIA da Diversidade.

Saiba mais sobre Anápuáka e os seus pontos de vista assistindo ao vídeo.

Anápuáka Tupinambá

http://www.cultura.gov.br/o-dia-a-dia-da-cultura/-/asset_publisher/waaE…

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