O Globo, Rio, p. 17
29 de Jan de 2011
Técnicos propõem medidas para evitar novas catástrofes
Para especialistas, ocupação agravou tragédia em Itaipava
Rogério Daflon
Embora as enxurradas no Vale do Cuiabá, em Itaipava, tenham sido causadas por uma entrada de precipitação muito intensa no ambiente montanhoso da Região Serrana, a tragédia foi agravada pelas condições de uso do solo. Essa foi a conclusão de um grupo de especialistas, que estuda há anos a Região Serrana.
Reunidos ontem em Itaipava, eles apresentaram à sociedade o diagnóstico da catástrofe, que poderá servir de base para ações de recuperação da área.
- A nossa preocupação maior foi compreender o fenômeno, a dimensão da catástrofe.
O objetivo foi gerar subsidio, primeiramente, para que isso não corra mais e, depois, para permitir a recuperação da área com base científica - disse Yara Valverde, que coordenou o estudo e foi presidente do Instituto Estadual de Florestas.
Segundo o biólogo Bruno Coutinho, a forma como o vale foi ocupado teve um peso grande na dimensão da tragédia:
- Pelo menos 34% dos trechos edificados no Vale do Cuiabá estavam em áreas de preservação permanente. Se a legislação fosse aplicada, muitas mortes teriam sido evitadas.
Bruno explica que, no caso do Rio Cuiabá, a restrição de 30 metros foi insuficiente. Em algumas áreas, o leito do rio atingiu cem metros de distância do canal.
Projeto evitou mortes em enchentes por três anos
Para a procuradora do MP estadual Denise Tarin, ex-promotora do Meio Ambiente em Petrópolis, o problema é a ausência de gestão do território. Entre 2002 a 2005, Denise coordenou o Projeto Morte Zero, cujo objetivo foi mobilizar as comunidades em áreas de risco sobre os perigos da ocupação. Como resultado, o governo do estado implantou o sistema de alerta feito pelo Laboratório Nacional de Computação Científica. Durante o projeto, embora tenha havido inundações e desmoronamentos, não houve mortes.
- Para mim, de 2002 a 2005, a sociedade e o poder público estavam mais mobilizados e alinhados, o que é a única estratégia para evitar tragédias. É bom deixar claro que, embora haja casas no Vale do Cuiabá de classes média e alta, muitas famílias de baixa renda que moravam às margens do rio foram atingidas. As consequências nessa área atingiram pobres e ricos.
Para Bruno, o Vale do Cuiabá é um exemplo de falta de fiscalização dos governos:
- Em nível federal, o Ibama e o Instituto Chico Mendes teriam que fiscalizar o uso do solo. No estado, o Inea teria que fazer um zoneamento ecológico participativo. No município, o Plano Diretor de Petrópolis deveria nortear o uso do solo. Sem falar que há duas APAs no Vale do Cuiabá. Elas têm que ter conselhos, e os moradores do Vale deveriam estar nesses conselhos.
O Globo, 29/01/2011, Rio, p. 17
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