OESP, Vida, p. A15
12 de Jan de 2007
Tamanho é documento para aves na Amazônia
Ausência de algumas espécies mostra que área em que vivem é crucial para sua sobrevivência
Giovana Girardi
O papa-formigas de topete (Pithys albifrons) é um pássaro pequenino da Amazônia, mas apesar de seu tamanho, ele precisa de áreas muito grandes para sobreviver. Isso porque ele vive na cola das formigas-de-correição, que se deslocam em bandos por longas distâncias à caça de pequenos invertebrados - prato favorito da ave. Voando por cima das formigas, ela alcança antes as presas e pode comer sossegada.
Seu modo de vida impede sua existência em pequenos trechos da mata. Analisando os hábitos do P. albifrons e de mais 54 espécies de pássaros, uma equipe internacional de pesquisadores, incluindo brasileiros, descobriu que o tamanho das reservas florestais é mais importante do que se imaginava.
O estudo, publicado na edição de hoje da Science (www.sciencemag.org), mostra que para proteger pelo menos mais da metade das espécies avaliadas é preciso preservar a floresta como um todo. Apenas manejar fragmentos com remanescentes de mata em meio a pastagens pode não ter utilidade nenhuma. A conclusão é resultado de mais de 25 anos de estudo do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, que compara trechos isolados cercados por pastagens com pequenos territórios inseridos no meio da floresta contínua.
O estudo dos impactos da fragmentação da Amazônia tem mostrado que a biodiversidade local pode ser afetada de diversas maneiras. Em novembro, a equipe publicou na revista PNAS que as árvores que vivem nos trechos remanescentes morrem mais rápido do que se elas estivessem em uma floresta contínua. Agora, avaliando a flora, o grupo imaginava que poderia encontrar resultados parecidos, mas o problema parece ser outro.
De fato, muitas das espécies presentes na floresta contínua não são encontradas nos fragmentos isolados, o que já era esperado, mas será que eles são encontrados em trechos pequenos inseridos no meio da mata?
Analisando dados de mais de 40 mil pássaros capturados em 23 trechos isolados e inseridos na mata, com tamanhos que variavam de 1 a 600 hectares, o grupo descobriu que algumas espécies são tão raras que dificilmente elas aparecem em trechos pequenos mesmo em meio a mata original. O isolamento com certeza agrava essa situação, mas por si só não explica as ausências em todos os casos.
"A floresta é muito heterogênea. Algumas espécies, como o papa-formigas de topete, dependem de uma grande área. Outros requerem hábitats muito específicos, como a cabeceira de um igarapé, ou uma clareira. Nossa conclusão é que medidas de manejo que levam em conta só o fragmento não resolvem o problema. O que mais afeta a ocorrência das aves é a área como um todo", explica Gonçalo Ferraz, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas, que liderou o estudo.
"Esse é um sinal de vulnerabilidade irreparável desses animais. Se o potencial de devastação atual se mantiver no futuro, muitas espécies estão condenadas, porque não teremos como propiciar hábitats para elas apenas fazendo melhorias do isolamento. Precisamos ter em mente a manutenção das áreas."
OESP, 12/01/2007, Vida, p. A15
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