Terra Magazine - www.terramagazine.terra.com.br
Autor: Altino Machado
25 de Set de 2008
Ações locais de proteção carecem de recursos e de apoio oficial
A pretexto de proteger os índios isolados da fronteira Brasil-Peru, vítimas dos madeireiros peruanos que invadem e destroem suas terras, a Survival International lançou uma nova campanha mundial para obter a doação de euros para a organização e o envio de cartas ao presidente peruano Alan Garcia em apoio aos indígenas.
Survival, cuja sede funciona em Londres, não explica como o dinheiro da arrecadação será transformado em ações de proteção de etnias que vivem isoladas e se defendem das ameaças basicamente com arco e flecha. A organização sugere doações que variam de 6 a 100 euros. Mas o contribuinte tem a opção de fazer doação mensal, trimestral e anual de valores maiores, optando por tornar-se sócio ou não.
Justifica a campanha com as ameaças causadas pela extração de madeira no lado peruano, conforme mostrado em fotos que a Survival diz ter divulgado. Na verdade as fotos foram cedidas pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etno-Ambiental do Rio Envira, e divulgadas pela primeira vez por Terra Magazine, no dia 23 de maio.
Ao tomar conhecimento das fotos, Survival contatou o sertanista e também obteve autorização para divulgá-las uma semana após a publicação da Terra Magazine.
Apesar da comoção causada pelas fotos na mídia internacional, Meirelles nas últimas semanas tem alertado para as ofensivas dos isolados contra trabalhadores da Frente de Proteção Etno-Ambiental, por confundí-los com madeireiros peruanos, que continuam a atuar ilegalmente do outro lado da fronteira.
Survival informa que tem enviado "Boletins de ação urgente" a milhares de pessoas em 85 países, denunciando como a exploração ilegal de madeira tem provocado o contato trágico de um grupo isolado, conflitos violentos e a fuga de alguns indígenas para o Brasil.
Nas cartas que estão sendo enviadas a Alan Garcia, exige-se que o governo peruano proteja a terra dos índios isolados expulsando os madeireiros, impedindo a entrada dos não indígenas e proibindo toda forma de exploração de recursos naturais em sua terra.
- Ademais deve organizar um plano de emergência em caso de contato entre os povos isolados e os não indígenas, e acatar a legislação internacional reconhecendo a propriedade dos indígenas sobre suas terras. A sobrevivência de muitos desses povos indígenas isolados corre agora mesmo grave perigo: eles enfrentam a extinção - apela a carta.
Direto do Paralelo 10
A maior concentração de índios isolados do mundo ocorre em 3 mil quilômetros de floresta amazônica ao longo da fronteira Brasil-Peru, dos quais 2.003 Km em limites formados por rios, lagos e canais, e 992 km em linha seca, sendo 709 km ao longo de terras dos divisores e 283 km em três linhas geodésicas.
Um das três linhas geodésicas é o Paralelo de 10o S, onde uma tragédia silenciosa está ocorrendo. Confira os últimos relatos do sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etno-Ambiental do Rio Envira, direto do Paralelo de 10o S.
Do dia 14 de setembro:
"Bom dia amigos.
A coisa aqui está braba, no igarapé Xinane. Nesta manhã, dois trabalhadores foram tirar umas melancias numa praia, no trecho do igarapé acima aqui de casa. Domingo é dia de folga e de comer melancia doce e madura.
Logo acima da boca do Xinane, adivinhem: flechada e tiro.
Eu não sei se esses parentes [os índios que vivem em isolamento] são ruins de flecha ou tiro, se existe madeireiro peruano no meio deles ou se roubaram espingarda em algum acampamento de madeireiro em território do Peru.
O que sei é que estamos bem perto de realmente pegarmos um tiro ou uma flechada. Não é possível tanta sorte assim.
A coleção de flechas aqui em cima da mesa de minha casa está aumentando. Se a causa desses ataques for realmente para vingar o que fizeram com os isolados no Peru, só resolveremos a situação quando deixarem os parentes em paz, do outro lado da fronteira.
Do ponto de vista dos parentes é um bom motivo, afinal somos todos brancos invasores. Mas abandonar a frente seria deixá-los à própria sorte, também do lado de cá.
O jeito é esperar a próxima flechada ou tiro.
É isso moçada: bom domingo para vocês, pois o nosso começou muito bem.
Como sou teimoso, mais tarde vou apanhar umas melancias.
Abraços".
- Mais tiros
"Olá pessoal!
Logo após enviar a primeira mensagem, os caras atiraram de novo, no rumo da boca do Xinane. Fomos ver o local de onde tinham atirado nos meninos. Eram de seis a sete pessoas. Tiraram banana no nosso bananal, dormiram na beira do rio. Tava o fogo em cima do barranco.
Tinha o rastro de uma mulher. Eram os parentes mesmo. Rastro típico. Uma chave grande de largura! Choveu ontem aqui e tá bom de ver rastro.
Achamos uma vaqueta (vara fina) de tirar cartucho da espingarda. Pela grossura da vaqueta, era pelo menos uma de calibre 20. Ainda botaram uma forquilha para escorar a espingarda.
Trouxemos a vaqueta e a forquilha. Eles seguiram pro rumo das cabeceiras do Xinane.
Só falta eles aprenderem a atirar direito!
Abraço".
Do dia 16 de setembro:
"É madrugada aqui na mata. A lua se pondo e os capelões começam a roncar. Aqui tem muito capelão. Ainda bem.
Eles roncam da força que fazem, cada um com seu cipó amarrado no sol, puxando com toda força prá ele romper o horizonte e trazer o dia.
Os cujubins riscam asa: trtrtrtrtrtrtrt, a nambu azul foooooote. E eu aqui, do meu jeito, animando os capelões a arrastar o sol.
Meus amigos, meu lugar é aqui!
Posso até ter ilusões cosmopolitas, mas meu coração bate forte é aqui, nesse alto rio...
Flecha e tiro? Isso lá é nada!
Quem participa do arraste do sol com os capelões, se não se encantar antes, só pode morrer de flechada de brabo.
Afinal são eles os guardiões da vida e da morte por aqui. No dia que eles amansarem, os capelões deixarão de roncar puxando o sol...
O dia chegará, mas não amanhecerá nunca mais".
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.