O Globo, País, p. 15
25 de Out de 2014
Superiores orientaram Sabesp a não alertar sobre falta d'água
Em gravação feita em reunião, Dilma Pena diz que decisão era 'um erro'
JULIANNA GRANJEIA julianna. granjeia@ sp.oglobo.com. br
-SÃO PAULO- Numa reunião com a cúpula de dirigentes da Sabesp, a presidente da estatal paulista, Dilma Pena, recebeu ordens de superiores para não orientar a população de São Paulo a economizar água. É o que mostra áudio da reunião obtido pelo GLOBO.
Na gravação, Dilma Pena critica a orientação superior, mas diz que é obrigada a obedecer: "Por uma orientação superior, a Sabesp tem estado muito pouco na mídia (...). É um erro, tenho consciência absoluta, e falo para pessoas com quem converso sobre esse tema, mesmo meus superiores, acho um erro essa administração da comunicação dos funcionários da Sabesp, que são responsáveis por manter o abastecimento, com os clientes", diz a presidente da estatal que ainda afirma que precisava haver uma campanha para os cidadãos economizarem água.
Na mesma reunião, ocorrida em agosto, o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, reconheceu que o governo enfrenta "ações desafiadoras" para prolongar a vida útil do Sistema Cantareira e "esticar um pouco mais" o abastecimento de água, e diz que a situação é de "agonia".
"Se repetir o que aconteceu este ano, do final de 2013, de outubro pra cá, se voltar a repetir em 2014, confesso que não sei o que fazer, tá certo? Essa é uma agonia, uma preocupação", diz Massato.
Em tom de brincadeira, o diretor diz que será preciso comprar água mineral e tomar banho no litoral. "Não vai ter água para o banho, não vai ter água para a limpeza da casa. Quem puder compra garrafa de água mineral, tá certo? Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe, lá em Santos, lá em Ubatuba, em Águas de São Pedro, sei lá. Aqui não vai ter", diz o diretor na gravação.
São Paulo vive a maior crise hídrica de sua história. O sistema Cantareira, que abastece 8 milhões de pessoas, está em 3% de sua capacidade. O governo de São Paulo é o acionista majoritário da Sabesp.
Governo: cabe à estatal esclarecer fala de presidente
Empresa diz que trecho foi extraído 'de maneira distorcida'
-SÃO PAULO- O governo de São Paulo afirmou, por meio de nota, que "nunca vetou qualquer alerta sobre a crise hídrica" e que "cabe à Sabesp, empresa autônoma da administração indireta, composta por uma diretoria e um conselho de administração, esclarecer as circunstâncias e o sentido das frases gravadas e vazadas seletivamente a dois dias das eleições".
A Sabesp informou que o áudio divulgado "diz respeito a uma reunião de trabalho, interna, com equipes operacionais, envolvendo mais de cem pessoas. O objetivo era atualizar as equipes para a intensidade da crise e mobilizá- las para ampliar as ações operacionais e de comunicação para o uso racional da água".
A empresa também diz que o trecho divulgado "foi extraído de maneira distorcida e fora do contexto". "A presidente da empresa responde às demandas das equipes operacionais, que questionavam a estratégia de comunicação. A presidente informa que a estratégia de comunicação já havia sido decidida pelas instâncias superiores da própria empresa. É óbvio o claro intuito eleitoreiro da divulgação desonesta desta reunião interna de trabalho, a dois dias da eleição", diz nota da Sabesp.
O presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, afirmou nesta semana que, se não chover o volume médio nos próximos meses, a Sabesp vai tirar água do lodo, já que não existe terceira cota do volume morto.
Nos últimos dias, a crise virou tema da campanha presidencial e entrou na propaganda de TV da presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição. Dilma atribuiu a falta d'água à gestão tucana. Já o PSDB diz que o PT está fazendo terrorismo e uso eleitoral do caso.
A liderança do PT na Assembleia Legislativa informou que vai entrar com representação no Ministério Público para investigar ato de improbidade do governador e do secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Mauro Arce.
O Globo, 25/10/2014, País, p. 15
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