O Globo, Sociedade, p. 29
16 de Mar de 2016
Sujeira fatal
Relatório da OMS mostra que quase um quarto das mortes são provocadas por insalubridade
Cesar Baima
Poluição do ar, da água e do solo, exposição a produtos químicos ou radiação solar, as mudanças climáticas e até mesmo estradas e ruas mal construídas, sinalizadas ou localizadas. Esses e outros fatores ambientais encontrados em casa ou no trabalho, e que fogem ao controle direto de cada indivíduo, foram responsáveis por quase um quarto das mortes em todo mundo registradas em 2012, aponta relatório divulgado nesta terça-feira pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com as estimativas da instituição, pouco mais de 12,6 milhões de pessoas (ou 22,7% de todas as fatalidades daquele ano) foram vítimas de mais de 100 doenças, grupos de males ou acidentes que poderiam ser evitados se elas não vivessem ou trabalhassem em ambientes insalubres ou inadequados.
Ainda segundo o estudo, no Brasil quase 200 mil mortes, ou 15% do total de óbitos de 2012, podem ser atribuídas a estes fatores ambientais. Aqui, como em boa parte do planeta, as doenças não comunicáveis, como cânceres e problemas cardiovasculares e pulmonares, responderam pela maior fatia das fatalidades relacionadas ao ambiente, em especial a poluição do ar, numa importante mudança na comparação com o relatório anterior, divulgado em 2006 e relativo às mortes em 2002. Então, a OMS calculou que a maior parte das mortes ocorreu por infecções e parasitas, como diarreias e malária, e más condições neonatais e nutricionais relacionadas ao ambiente. Já em 2012, 8,2 milhões das mortes atribuídas a fatores ambientais, ou 64%, foram resultado de doenças não comunicáveis, e apenas cerca de 20% de males infeciosos ou parasitários. De acordo com a organização, essa alteração se deu principalmente pela expansão do acesso à água potável e do saneamento básico, assim como de vacinas e medicamentos essenciais.
- Um ambiente saudável é a base de uma população saudável - lembrou Margaret Chan, diretora-geral da OMS. - Se os países não agirem para tornar mais saudáveis os ambientes que as pessoas vivem e trabalham, milhões vão continuar a adoecer e morrer mais jovens.
Crianças e idosos sofrem mais
De acordo com o relatório, os riscos ambientais à saúde são maiores para as crianças de até 5 anos e os adultos com idade entre 50 e 75 anos. Pelas estimativas da organização, melhorias nas condições em que essas pessoas vivem poderiam evitar 1,7 milhão de mortes anuais entre os mais jovens, que sofrem principalmente com infecções respiratórias e diarreias, e 4,9 milhões de mortes anualmente entre os mais velhos, atingidos com mais força pelos cânceres e problemas cardiovasculares e pulmonares.
O relatório também identificou grandes desequilíbrios regionais e econômicos no fardo global da morte ou incapacitação prematuras devido a fatores ambientais. Juntos, o Sudeste Asiático e a região do Pacífico Ocidental contabilizaram mais da metade dos óbitos pelas más condições ambientais de 2012, com um total de cerca de 7,3 milhões, enquanto os países de renda baixa ou média são os que apresentam os maiores impactos destes fatores como proporção do total dos falecimentos, embora no caso das doenças não comunicáveis quase não haja diferença entre as nações ricas e pobres em mortes per capita atribuídas à insalubridade.
O documento da OMS, no entanto, traz também esperanças de melhorias neste cenário, apresentando estratégias para reduzir o número de mortes relacionadas a fatores ambientais. Entre as iniciativas destacadas, estão as de Curitiba, onde os investimentos no sistema de transporte BRT, integrado com espaços verdes e calçadas para pedestres, encorajou caminhadas e o uso de bicicletas. Assim, aponta a organização, os níveis de poluição do ar na cidade são relativamente baixos, apesar de sua população ter quintuplicado nos últimos 50 anos, a a expectativa de vida lá é dois anos superior à média brasileira.
- Há uma necessidade urgente de investimentos em estratégias que reduzam os riscos ambientais em nossas cidades, lares e locais de trabalho - considerou Maria Neira, diretora do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Sociais e Ambientais da Saúde da OMS. - Estes investimentos podem reduzir significativamente o crescente fardo global das doenças cardiovasculares e respiratórias, ferimentos e cânceres, e levar a economias imediatas nos gastos do sistema de saúde.
No Rio, risco de mortalidade sobe com a temperatura
Estudo mostra que, acima dos 31,55 graus Celsius, a vulnerabilidade é 36% maior
De acordo com estudo elaborado pela Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas ( UCCRN, na sigla em inglês), o risco de mortalidade no Rio de Janeiro é 36% maior quando a temperatura fica a 31,55 graus Celsius durante seis dias consecutivos, na comparação com a temperatura a 21 graus Celsius. E a tendência do risco é crescente.
- A partir dos 26 graus Celsius o risco relativo de morte começa a aumentar - explicou Martha Barata, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz ( IOC/ Fiocruz) e coordenadora da UCCRN na América Latina. - O estudo serve de alerta, sobretudo para idosos e crianças, que devem se precaver em dias quentes.
CALOR MAIS FREQUENTE
Os riscos de mortalidade relacionados à temperatura têm importância especial neste momento, em que as cidades começam a pensar em estratégias de enfrentamento para as mudanças climáticas. A expectativa é que, nos próximos anos, ondas de calor se tornem mais frequentes.
- As mudanças climáticas terão impacto na saúde humana, por isso pretendemos incluir no currículo das faculdades o ensino de formas de mitigar seus efeitos - disse Linda Fried, reitora da Escola de Saúde Pública da Universidade Columbia ( EUA) ontem, em evento conjunto entre Fiocruz, UCCRN e Columbia Global Centers em que foram apresentados os resultados do estudo.
- Existem variáveis que merecem aprofundamento. Uma pessoa que não pode pagar por um ar condicionado pode ser mais afetada que outras. Populações que vivem em ilhas de calor também - disse Martha, que prosseguirá a pesquisa investigando os impactos das ondas de calor por faixa etária, condição socioeconômica, regiões da cidade e tipos de doenças.
O estudo foi realizado com base em registros históricos da taxa de mortalidade diária no município, excluindo fatores externos como homicídios e acidentes, e da temperatura média diária na estação de São Cristóvão durante os meses de verão, entre 2002 e 2014. Os picos de mortalidade acontecem no mesmo dia ou pouco tempo após a exposição ao calor. Apesar de o detalhamento por doença ainda não ter sido elaborado, pessoas com problemas cardiovasculares devem ter atenção especial ao termômetro.
O Globo, 16/03/2016, Sociedade, p. 29
http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/ambientes-insalubres-provocam-1…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.