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Sucesso em paises vizinhos estimula interesse no Brasil

GM, Saneamento e Meio Ambiente, p.A11
09 de Jun de 2004

Sucesso em países vizinhos estimula interesse no Brasil

Brasília, 9 de Junho de 2004 - Empresários brasileiros investem cada vez mais em um novo e controverso hobby: a caça. Por enquanto, o único estado a permitir legalmente a atividade é o Rio Grande do Sul, que no final de maio abriu a temporada de 2004, com regras baseadas em portaria anual do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). O mercado gaúcho é caracterizado pelas chamadas "caças menores", como aves e perdizes, caçadas em locais previamente escolhidos em função da densidade populacional dos animais. Para os aficcionados em "caças maiores", proibidas no Brasil, os destinos preferidos são Argentina e Uruguai, países que possuem mais de 100 fazendas destinadas à atividade. "Estima-se que apenas nesses dois países a renda gerada com a caça chegue a US$ 1,5 bilhão por ano", diz o presidente da Federação Gaúcha de Caça e Tiro (FGCT), Lúcio Paz. São cerca de 20 espécies liberadas para abate e 250 mil pessoas envolvidas na atividade. Além das diárias pagas às fazendas (em torno de US$ 400 na alta estação), os caçadores arcam com o custo do "troféu" abatido, que vai de US$ 500 a US$ 15 mil por animal. Este valor depende da "galhada" (do número de pontas que compõem o chifre, sua espessura e coloração) e ainda da idade do animal. Os mais procurados são o cervo colorado, cervo dama, o búfalo e o javali. Paz destaca que safaris de caça, em áreas organizadas, são permitidos e legalizados na maioria dos países, sem o mínimo risco de extinção das espécies alvo. "A atividade é incentivada por departamentos de fauna e turismo como fonte de divisas e no auxílio da fiscalização e perpetuação das espécies", acrescenta. Segundo ele, só existem animais para caça onde existem caçadores, pois são eles que, com pesados investimentos, mantém a fauna para a atividade. "E indiretamente beneficiam as espécies nativas, pois além da preservação do ambiente natural, induzem à produção de alimentos, favorecendo todo o ecossistema", diz. No Brasil, o Ibama esclarece que a Lei 5.197/67, a Lei de Fauna, proíbe a caça profissional e o comércio de espécies brasileiras. Mas faculta a prática da caça amadorista, considerada também como uma estratégia de manejo desde que as populações sejam monitoradas. Segundo Wagner Fischler, técnico da Coordenação Geral de Fauna do Ibama, é preciso que os estados apresentem uma estimativa populacional que assegure o não comprometimento da espécie pela atividade da caça. Organização O Rio Grande do Sul, por exemplo, apresenta anualmente ao Ibama relatórios elaborados pela Fundação Zoobotânica e Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Aves Silvestre . "Outros estados querem permissão para caçar, mas não querem arcar com os custos do monitoramento", diz Paz. Este ano, o cronograma gaúcho inclui a caça de banhado (piadeira, caneleira e marrecão) e a caça de campo (perdiz, pomba-de-bando e pombão). Para o marrecão, por exemplo, foi autorizado o abate de 21 aves para todo o período. Os caçadores queriam 41 unidades. O número de caçadores autorizado está limitado a quatro mil, sendo que eles precisam estar cadastrados na gerência executiva do Ibama e pagar uma taxa de R$ 300 ao instituto e outra de R$ 280 para a federação. O Rio Grande do Sul possui 40 clubes de caça, com cerca de 300 sócios cada um. Este ano, pela primeira vez, as espécies consideradas "problema", como a caturrita e o javali, possuem o abate regulamentado por legislações específicas. A medida tem como objetivo facilitar o controle e o manejo das espécies, cujo descontrole populacional provoca danos à agricultura. Fischler explica que, no caso do javali, a caça "é um favor que os caçadores fazem ao meio ambiente", já que esta não é uma espécie nativa do Brasil. Ele diz que a segunda causa de perda de diversidade é a introdução de espécies exóticas, que tendem a proliferar com mais facilidade na ausência de predadores naturais. No Brasil, há javali em pelo menos sete estados. Os defensores da caça usam como principal argumento para sua liberação a geração de emprego e renda. "Seria uma alternativa econômica para a metade Sul do Rio Grande do Sul", defende Paz. Nos Estados Unidos, por exemplo, a atividade movimenta US$ 25 bilhões por ano, segundo Vitor Nora, proprietário da agência gaúcha de safaris, a Savage Adventures, que vende pacotes turísticos para Argentina e Uruguai. Ele diz que nos últimos 100 anos a população americana cresceu quatro vezes, enquanto a do cervo da Virgínia aumentou vinte vezes, devido ao manejo da caça. Os clientes da Savage provêm de todo o Brasil. "Até do Piauí", diz Nora. São pessoas atrás de programas como o oferecido pela fazenda Algar, a 100 quilômetros de Bariloche, na Argentina. É um parque privado com 24 mil hectares, habitat adequado para o cervo colorado, que se constitui no troféu de caça maior mais cobiçado da região. A temporada vai de março até o fim de setembro. Um pacote com sete cervos – sendo cinco fêmeas – custa US$ 2,5 mil. Oposição O gosto pela caça tem oposição ferrenha de entidades ambientalistas. Entre elas a Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal (Arca), criada em 1993 com o objetivo de promover o bem-estar e o respeito aos direitos dos animais. A organização rejeita a justificativa dos defensores da liberação da caça, principalmente o argumento que ela atrairia turistas, geraria renda e protegeria as plantações, já que muitos animais se reproduzem rapidamente, atacando as lavouras. De acordo com a Arca, é "uma aparente coincidência o fato de as principais empresas de armamentos estarem instaladas no Rio Grande do Sul". A entidade defende uma mudança de mentalidade nessa área, como ocorreu na África, onde, após documentários que revelaram ao mundo as cenas chocantes do abate de elefantes, leões e tigres para virar troféus de caçadores, vários parques de caça deram lugar ao safari de observação. Segundo a Arca, essa modalidade de turismo atrai um número muito superior de visitantes e contribui para a preservação da vida, sem crueldade. GM, 9-10/06/2004, p.A11

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