O Globo, O Pais, p.14-15
29 de Mai de 2005
Sub-registro cresce nas regiões mais pobres
Em municípios do Pará e do Amazonas, taxa foi de 100% em 2002, indicando que nenhuma criança foi registrada
Os dados do Registro Civil divulgados pelo IBGE mostram que, a cada ano, 22,5% dos registros feitos no país são tardios, ou seja, de pessoas não nascidas naquele ano, sejam elas crianças ou adultos. Num país marcado pela desigualdade, as taxas de sub-registro (crianças não registradas no ano do nascimento nem nos três primeiros meses do ano seguinte) e registros tardios crescem nas regiões mais pobres.
Em 2002, o sub-registro era 40,4% em Roraima e 40% no Amazonas. Caía para 4,9% em Santa Catarina e 5% em São Paulo. Em 2003, no Amazonas, por exemplo, 51,38% dos registros foram tardios. Todos os estados da região Norte têm taxas de registro tardio muito altas, acima de 40%. Os melhores índices, de novo, são de São Paulo (7,44%) e Santa Catarina (8,15%).
Dados da Secretaria de Direitos Humanos para 2002 mostram que alguns municípios têm 100% de sub-registro. É o caso de Carmolândia e Abreulândia, em Tocantins. No primeiro, nasceram em 2002 42 crianças; no segundo, 56. Nenhuma foi registrada. O mesmo aconteceu em Cumaru do Norte, no Pará: das 60 crianças nascidas vivas em 2002, nenhuma foi registrada em cartório.
A falta de registro de nascimento é associada à pobreza. Sem documento, a pessoa não é cidadã. A falta de registros fidedignos dificulta a construção dos indicadores sociais diz Cláudio Crespo, gerente de estatísticas vitais do IBGE.
Por lei, o registro de nascimento, assim como o de morte, é gratuito desde 1997. Nenhum cartório pode cobrar por eles. Para fazer o registro, um dos cônjuges deve comparecer ao cartório com a declaração de nascido vivo emitida pela maternidade e as carteiras de identidade dos dois.
Quem não tem registro não pode tirar identidade, CPF nem carteira de trabalho. Não vota e não tem conta em banco. Não pode se cadastrar como beneficiário de programas sociais de transferência de renda, pois todos exigem, no mínimo, a certidão de nascimento.
Segundo Florence Bauer, oficial da Unicef no Brasil para o registro civil, o sub-registro é alto no país. A taxa é de 2% nos países industrializados, chega a 55% na África subsaariana, e a média na América Latina é de 14%. No mundo, 48 milhões de crianças de 0 a 5 anos não têm registro.
O registro é a prova da existência. Uma criança sem registro é alvo fácil de traficantes e de exploradores do trabalho infantil, já que dela nada se sabe diz Florence Bauer.
CRIANÇAS TÊM FORMAÇÃO DA IDENTIDADE PREJUDICADA
Plano Nacional de Registro Civil tem verba pela primeira vez este ano e fará campanha
Para Leilá Leonardos, assessora da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, o problema do sub-registro é gravíssimo e não será resolvido de uma hora para outra:
A pessoa sem registro civil é o sem nome e sem sobrenome mesmo. Sobretudo para as crianças, há comprometimento na formação da identidade, pois são chamadas de muitos nomes, e não há registro para definir o nome de direito.O Plano Nacional do Registro Civil, de 2004, tem a meta de baixar para 5% o sub-registro. O governo tem organizado campanhas e este ano, pela primeira vez, o programa tem orçamento, R$100 mil, mais R$200 mil para projetos de promoção da cidadania que incluem o registro civil. Uma campanha está prevista para o segundo semestre.Segundo ela, o sub-registro diminuiu com programas sociais que, para repassar benefícios, exigem documentos. Uma das demandas é uma pesquisa que contabilize o total de brasileiros sem registro. A sugestões é incluir a pergunta numa das pesquisas do IBGE.O presidente da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), Jaime Araripe, diz que os cartórios estão mobilizados para baixar o sub-registro e fazem campanhas de registro itinerante. Afirma, porém, que, com a gratuidade, quase seis mil pequenos cartórios fecharam por falta de dinheiro: Onze estados não criaram os fundos de compensação previstos em lei para repassar aos cartórios os serviços prestados. Em outros estados, os fundos funcionam precariamente.
Mal tenho o que comer, não dá para pensar em documento
Em Marituba, no Pará, índice de sub-registro é de quase 100%
MARITUBA (PA). A 14 quilômetros de Belém, um dos municípios mais novos do Pará sofre com o problema do sub-registro. Dados da Secretaria de Direitos Humanos mostram que, em Marituba, das 1.786 crianças nascidas em 2002 em hospitais do município só 23 foram registradas o que dá um índice de 98,71%. Também não faltam adultos que não têm registro de nascimento, como acontece nas famílias da invasão Santa Lúcia, um amontoado de casebres de barro e madeira.
Marli Smith tem 21 anos e uma filha, Ana Sofia, de 4. Marli é órfã de pai e mãe e não tem documentos, assim como a filha, que não conhece o pai. Ele abandonou a família depois do nascimento de Sofia. Na casa há um fogão de duas bocas, uma cama de solteiro e uma rede. A menina nunca foi à escola. Marli sobrevive com a ajuda de vizinhos. Não sabe explicar o motivo de nunca ter procurado documentos para si e para a filha.
Mal tenho o que comer, não dá para ficar pensando muito em documento diz.
Cartório cobra por serviço gratuito
Fabrícia de Jesus Martins Melo, 22 anos, é mãe de Ícaro, de 6 meses. Ela conseguiu há pouco tempo a certidão de nascimento numa Ação Global no município, mas não conseguiu dar a certidão ao filho. No cartório, além da distância, outro problema: a cobrança para obter um documento que, por lei, é gratuito.
Eles liberam só dez senhas por dia para certidões gratuitas. Depois disso só pagando R$20, que eu não tenho. Como vou caminhando, nunca chego a tempo de conseguir senha diz.
O pai da criança, Bruno, de 17 anos, faz bicos como ajudante de pedreiro. Sem documentos, não consegue emprego fixo.
Dos quatro filhos de Elizângela Dias Mota, 32 anos, dois Mariane, de 3 anos, e Eduardo, com 1 não têm documentos. Elizângela não tem carteira de identidade nem certidão de nascimento. O marido, caseiro em um sítio, tem certidão, mas não tem carteira de identidade. Elizângela mora na invasão Santa Lúcia. Quando recebeu O GLOBO tinha só um pouco de feijão para dar aos filhos no almoço.
É muito longe daqui para o centro. Não dá para largar tudo e ir atrás de documentos para os meus filhos. Seria bom se eles viessem aqui e deixassem a gente tirar os documentos.
Segundo a prefeitura, Marituba tem um dos maiores índices de invasões no Pará houve 20 nos últimos três anos. Segundo a Secretaria de Ação e Promoção Social, esse é o principal fator para que grande parte da população da periferia não tenha documentos.
Estamos fazendo um levantamento para efetivar ações que minimizem este problema diz a secretária Elma Bastos
O Globo, 29/05/2005, p. 14 e 15.
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