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SOS para os povos da floresta acreana

Kaxiana- Agência de notícias da Amazônia - http://www.kaxi.com.br/noticias.php?categoria=3
Autor: Romerito Aquino
19 de fev de 2009

Não é a toa que, há pouco tempo, estudos atribuídos à Universidade Federal do Acre (Ufac) indicavam que duas das aldeias Kaxinawá apresentavam os mais elevados índices de subnutrição crônica entre as aldeias indígenas amazônicas. Some-se a isso o fato de o município do Jordão como um todo ter um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) do Brasil.

Diante de todo esse quadro de carências das aldeias acrianas, extensivo certamente às centenas de comunidades dos demais povos da floresta, como seringueiros e ribeirinhos, que vivem espalhados pelos muitos rios do estado, é de se perguntar: o que fazer para cuidar de sua saúde e de sua educação, evitando que eles continuem demandando atendimentos crescentes em hospitais, centros e postos de saúde das cidades? Trata-se de uma pergunta que, certamente, as prefeituras, o governo do estado e o governo federal podem muito bem responder caso se unam em ações concretas e objetivas, que podem muito bem quebrar esse perverso paradoxo da existência de um povo doente e mal alimentado em pleno coração da floresta de maior biodiversidade do mundo.

É de se ressaltar que a solução para esses problemas não passa pela ampliação da concessão dinheiro para índios através de programas assistenciais ou, visto que tal experiência tem se transformado, no Acre, num sério problema social e numa ameaça constante de desagregação de povos que sempre viveram em comunidades dentro da floresta. O que vem ocorrendo com os índios das etnias Jaminawa, Kulina, Manchineri e Kaxinawá, dos municípios de Sena Madureira e de Manuel Urbano, é um grande exemplo dessa terrível ameaça de desagregação.

Ao se deslocarem para a cidade a fim de receberem suas aposentadorias, esses índios, cuja maioria já deixou de plantar e pescar, acabam gastando todo dinheiro em bares da periferia da cidade, transformando-se, depois, num exército de miseráveis vivendo em palhoças nos barrancos do rio da cidade. Abandonadas nas aldeias, suas mulheres e filhas pequenas se vêem, então, obrigadas a também irem para a cidade, tendo que sobreviver à custa da prostituição e até do tráfico de drogas, com todos deixando para trás um crescente vazio nas terras indígenas, duramente reconquistadas em passado recente, e transformando suas vidas num progressivo caos social. O padre Paolino Baldassari, de Sena Madureira, não cansa de alertar as autoridades para esse desastre social naquela região acriana.

"Dar dinheiro para índio é colocar uma bomba atômica no colo dele", me disse recentemente o índio Joaquim Tashka Yawanawá, ao falar dos benefícios financeiros que estão se ampliando no Acre para índios de várias etnias. Vale lembrar o risco de se dar dinheiro até para certas organizações indígenas, a partir da descoberta recente, pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e outros órgãos federais, do sumiço de cerca de R$ 6 milhões da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), que deveriam ter sido destinados à melhoria da saúde dos índios, mas foram desviados, entre outros, pela União das Nações Indígenas (UNI), uma ONG formada pelos próprios índios. Neste caso, é preciso operar com lideranças indígenas honestas e sérias.

Assim, no caso dos índios do Acre e do restante da Amazônia, não se aplica sequer o velho ditado popular que diz que não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar. Eles já conhecem todo esse processo e o que precisam, urgente, é de apoio institucional que os orientem e que lhes permitam executar projetos econômicos que gerem renda dentro das próprias aldeias a partir de seus valorosos conhecimentos tradicionais sobre importantes riquezas existentes na floresta, tais como plantas, cascas de árvore, ervas, sementes, essências, frutas e a produção de seus belos artesanatos, entre outras.

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