OESP, Viagem, p. V2
Autor: WERBLOWSKY, Edgar
12 de Set de 2006
SOS Amazônia: é preciso um porta-voz
Edgar Werblowsky
Fundação SOS Mata Atlântica. Rede de ONGs da Mata Atlântica. São nomes que imediatamente nos vêm à mente quando pensamos na proteção da mata atlântica.
Eu pergunto: quais são as entidades que nos vêm à mente quando a questão é Amazônia? Tente responder rapidamente.
Não há. Isso é um problema e o reflexo da falta de unidade nessa questão. Diversas ONGs atuam na região. Empresas públicas, fundações, universidades, ministérios, organismos nacionais e internacionais. Para ilustrar, listo uma série desses organismos: Ipam, Jaika, Inpa, Naea, Numa, Museu Emílio Goeldi, Instituto de Madeiras, Greenpeace, WWF, ADA, Ministério Público, Ministério da Marinha, Ibama, Ministério do Meio Ambiente, Polícia Federal, Funai e outros mais.
Há inúmeros pesquisadores trabalhando na e para a região, seja no Brasil, ou no exterior. São milhares de teses, estudos e pesquisas - muitas delas sobrepostas -, mas normalmente vozes individuais. Percebe-se a falta de um fio condutor, um eixo central em torno do qual toda essa energia e produção intelectual devem gravitar.
Urge a coordenação desses esforços, dessa comunicação. Ressentimo-nos de uma entidade que centralize os esforços de conservação e que possa ser rapidamente identificada pelo público como a voz que fale pelo ecossistema.
O mais complexo e importante ecossistema contínuo do planeta necessita de um porta-voz. Alguma entidade que seja identificada pela sociedade como a fiel depositária de nossas inquietações, angústias e propostas. Um repositório com as mais lúcidas e coerentes soluções para essa região sem tutela nenhuma.
Infelizmente, a Amazônia se encontra a 4 mil quilômetros de nossas casas (Sudeste) e a maioria de nós se importa mais com o buraco no asfalto da rua do que com a sobrevivência de algo que é muito nosso e está sendo vilipendiado a olhos vistos.
A sociedade brasileira precisa se mexer. Queremos uma política clara para a região - e que seja respeitada. Exigimos o respeito às leis. Não aceitamos que o descaso, a inépcia, a acomodação a uma situação de total leniência sejam práticas correntes e aceitas. Política de conservação não deve ser apenas atribuição de um dos órgãos do governo. Tem de ser política de Estado.
Não podemos deixar que uma minoria se aproveite de um bem que é de todos e, pior, ao arrepio da lei, sem sofrer as sanções previstas, por absoluta vontade política.
Que País estamos legando a nossos filhos? Com que direito?
Recorro a Emile Zola (1840-1902) e valho-me de seu libelo: "Conclamo os homens de bem, as organizações comprometidas, a dar um basta nesta festa mórbida."
Se não o fizermos por bem, acabaremos por ter de fazê-lo por mal. A natureza é impiedosa quando vilipendiada. Urge a convocação dos homens de bem, das entidades comprometidas, para a criação de um porta-voz da floresta.
Chamemos as universidades a saírem de seu papel passivo na criação do conhecimento, na avaliação de teses, para adotarem uma postura proativa de conservação e fiadora de uma política responsável.
Gravíssimo erro é deixar continuar como está para ver como é que fica. Fatal é deixar a chave do galinheiro na mão da raposa.
Quando a maioria da sociedade acordar será tarde. As florestas e rios já estarão extintos. Para a desgraça de nossos filhos e netos. Será que, enfim, não vamos nos mexer, sair de nossas cadeiras?
Há exatos 20 anos, um grupo de ambientalistas, empresários, jornalistas, publicitários e homens de visão criou a Fundação SOS Mata Atlântica. Neste momento é imperioso que esse espírito reúna novamente as pessoas desse calibre e que juntos abracem esse desafio.
Edgar Werblowsky Diretor de Inovação e Ações Sócio-Ambientais da Freeway Brasil e diretor da Comissão de Turismo Sustentável da ONU (TOI)
OESP, 12/09/2006, Viagem, p. V2
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