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A sorte da floresta

CB, Opinião, p. 17
Autor: BERNARDO, Maristela
27 de Jan de 2008

A sorte da floresta

Maristela Bernardo
Jornalista e socióloga

A mata está indo embora. Mudam o ritmo, os imprevistos, os governos, mas o fato é que, quando se louvam quedas nos números do desmatamento na Amazônia, ganha pouco destaque o outro lado da história: a sangria contínua de enormes extensões de floresta. Pode-se argumentar que não se trata de comemoração, mas de satisfação pelo mal menor e por uma suposta sinalização de que, algum dia, se terá um desmatamento zero. O complicador é que, depois de cinco anos do anúncio de mudança estrutural no trato do problema, a explosão de desmatamento no segundo semestre de 2007 mostrou, mais uma vez, a persistência do império das circunstâncias e conjunturas a traçar o destino da floresta. Impossível não ter a sensação de rotina.
Na raiz dessa situação está algo fora do alcance dos esforços do Ministério do Meio Ambiente para lutar contra o desmatamento. Políticas ambientais realmente estruturais não estão ao alcance da área ambiental. Seus principais operadores no governo devem ser os ministérios e agências voltados para o fomento à produção. É aí que a política ambiental passa a ser consistente ou se revela semificção tangida pelos acasos do mercado. E, em última análise, mudança estrutural só ocorrerá se a política ambiental fizer parte essencial de um núcleo claro e forte de projeto de desenvolvimento em que a sustentabilidade socioambiental ganhe conceito, cara, vontade, tarefas, critérios, prazos, espaços permanentes de articulações e responsabilização cotidiana. E não só discurso. É preciso que a cabeça do governo, não o Ministério do Meio Ambiente, seja a fonte da coerência e da fusão entre proteção ambiental e desenvolvimento social e econômico.
Isso não existe neste governo e não existia nos anteriores. A agenda é o que se poderia chamar de MCP - mínimo compromisso possível, de olho nas repercussões internacionais e na bolsa de valores político-eleitoral. Para encarar o enorme desafio de criar uma lógica integrada de desenvolvimento sustentável, seria preciso a coragem, o desprendimento e a força de um grande estadista, que ainda não temos. Teremos um dia? Difícil dizer quando se vê que os únicos projetos existentes são projetos de poder.
Essa dinâmica perversa se coloca no caminho do papel que o MMA tenta desempenhar.
Mesmo que tenha buscado ações transversais para a Amazônia e que elas tenham sido proclamadas como de governo, a presença de ministérios e agências governamentais em reuniões ou mesmo a assinatura de protocolos não garantem nada. Na hora do vamos ver, à falta de algo superior que realmente dê liga, cada um parte para os próprios interesses, as próprias estatísticas, a própria concepção de produtividade, eficiência e desenvolvimento.
O preço das commodities teve seu peso nos bons e nos maus resultados do desmatamento.
O ciclo virtuoso, como gostam de dizer as autoridades, se equilibrava na corda bamba, conforme avisou há meses a organização não-governamental Imazon. O governo fez cara de paisagem até o limite. Quando resolveu abrir o jogo, no dia 23, o anúncio da reaceleração do desmatamento foi feito no MMA, com a presença do representante do Inpe. E se a notícia fosse muito positiva, o palco seria o Palácio do Planalto?
No dia seguinte, o presidente Lula, com ar de magistrado, arbitrou o notório estresse entre o meio ambiente e a agricultura. "Não é hora de acusar ninguém", disse. E quando será? Não de distribuir culpas, o que soa um pouco psicanalítico, mas de apontar responsabilidades, sim. Há cinco anos, fala-se em mudança estrutural na forma de lidar com o desmatamento; por que só agora se aponta o papel dos bancos oficiais, que municiam a derrubada da floresta com generosos financiamentos sem o devido rigor na contrapartida ambiental? Por que não se subsidiou fortemente o uso das áreas já degradadas?
O anúncio das medidas foi feito também pelo representante do MMA. Não seria mais apropriado que o fosse pela ministra Dilma Roussef, por exemplo? Ou a mensagem subreptícia é a de que, na hora de a onça beber água, é bom manter certa distância?
A Polícia Federal enviará mais 800 homens à região. Ótimo. E ficarão até quando? A suspensão do corte quem vai fiscalizar de maneira permanente? As unidades de conservação serão criadas só no papel, ou haverá orçamento e gente para implementá-las de imediato para que não aconteça o mesmo que no Pará, onde UCs tão recentemente criadas já foram invadidas para retirada de madeira?
E, afinal, haverá um dia políticas de desenvolvimento que incorporem no seu cerne a não derrubada da floresta? Só o pacotaço comando-e-controle, por mais rigorosa que venha a ser a sua aplicação - e a experiência manda desconfiar - não é a solução duradoura. Que a floresta, nós e o planeta tenhamos sorte para esperar e saúde para brigar por ela.

CB, 27/01/2008, Opinião, p. 17

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