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Sonho da terra propria

CB, Brasil, p.16
27 de fev de 2005

Colonos de vários estados desafiam o medo da ação de pistoleiros e foram para Anapu (PA) em busca de um lote no Projeto de Desenvolvimento Sustentado, defendido pela freira Dorothy Stang, assassinada há 15 dias
Sonho da terra própria
As terras de Anapu, no Pará, transformaram-se na última esperança para centenas de famílias de trabalhadores rurais que nunca possuíram um pedaço de chão onde pudessem plantar, colher e gerar renda. Atraídos pela promessa do governo de realizar reforma agrária na região da rodovia Transamazônica, colonos de vários estados deslocaram-se para o município. Agora, aguardam com ansiedade pela chance de viver sem serem submetidos à exploração de fazendeiros e grileiros. "Estamos parados, esperando pela nossa vez", afirma o maranhense Raimundo Nonato dos Santos, 55 anos, cinco filhos e quatro netos. "Com fé em Deus, eu vou conseguir meu lote", completa.
Raimundo chegou a Anapu há dois meses, depois de morar mais de vinte anos em outros cantos do Pará. Ouviu dizer que no município era mais fácil realizar o sonho da terra própria. "Votei no Lula porque vi na televisão quando ele falou que, quando sentasse na cadeira de presidente, ia fazer a reforma agrária, que ninguém ia precisar invadir fazenda para conseguir um pedaço de terra", conta o colono. "Isso já tem mais de dois anos, nada aconteceu, mas eu ainda acredito que vou conseguir", acrescenta.
A vontade de Raimundo é obter lotes para ele e para os filhos. "Estou velho, ando doente e quase não consigo trabalhar, mas eles precisam criar as famílias", diz. As terras de Anapu oferecem o que os colonos nunca tiveram. Os 20 alqueires previstos no Projeto de Desenvolvimento Sustentado (PDS) são suficientes para plantar legumes, arroz, feijão, milho e banana para a família se alimentar, na avaliação do camponês. Ainda sobra espaço para uma lavoura de cacau, produto com boa aceitação no mercado e, cada vez mais, explorado no Pará. Com a venda da colheita, espera conseguir dinheiro bastante para o sustento da família.
Os PDS foram criados em dezembro de 2002, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, para atender a uma reivindicação dos movimentos sociais de Anapu, liderados pela missionária americana Dorothy Stang, assassinada com seis tiros no dia 12 de fevereiro a mando de grileiros interessados nas terras destinadas à reforma agrária. O projeto prevê o uso de mais de 60 mil hectares de terras do município para o assentamento de colonos.
Enquanto não recebe o lote, Raimundo vive espremido com filhos e netos num barraco no meio do mato, perto de onde pretende ser assentado. Ainda não recebem bolsa-família e a cesta básica distribuída pelo governo dura apenas uma semana. Comem com a ajuda dos moradores mais antigos, pegam frutas na mata e caçam jabotis. A violência dos grileiros deixa o velho camponês preocupado. "Quase não durmo de tanto medo", relata. "Acordo várias vezes à noite para assuntar se não tem algum pistoleiro por perto", conta.

Faltam escolas e assistência médica
O medo afeta todos os colonos de Anapu. Depois da morte de Dorothy, a região foi ocupada pelo Exército e pelas polícias federal, civil e militar, mas os moradores temem a represália dos grileiros quando as forças de segurança deixarem o município. Mesmo assim, não pensam em abandonar o sonho da terra. Vivem também o drama da falta de assistência médica e escola para os filhos estudarem. Quase todos são analfabetos ou semi-analfabetos.
Alexandro da Conceição Souza nunca estudou. Se tiver oportunidade, quer freqüentar uma escola pelo menos durante seis meses. Com menos de 30 anos, tem uma filha e a mulher está grávida. Recebeu um lote do PDS há cerca de um ano, plantou roça e está feliz como nunca. "Minha vida mudou cem por cento", afirma. "Antes eu trabalhava com os outros e, agora, o que eu faço é para mim", explica.
A felicidade do colono em possuir um pedaço de terra é tanta que nem leva em conta a falta de infra-estrutura do PDS onde mora, próximo ao local onde Dorothy foi assassinada. Para chegar a Anapu, precisa percorrer cerca de 50 quilômetros de estradas enlameadas e quase intransitáveis durante o longo período de chuvas da Amazônia.
Nascida em Porto Nacional, no estado do Tocantins, Luziane Silva de Souza é analfabeta,
tem 20 anos e três filhos. 0 mais velho com 5 anos e o mais novo com oito meses. Ela e o marido ainda não conquistaram o pedaço de terra sonhado. Mesmo assim, sente-se feliz por se ter mudado para o município de Anapu. "Gosto muito mais daqui do que da cidade", diz.
Pedro Paulo Moreira, 37 anos, tem seis filhos e conseguiu um lote de vinte alqueires há quatro meses. 'A irmã Dorothy falava que aqui dava para conseguir terra e eu vim", conta.
Ainda não construiu casa, mas plantou arroz, milho e mandioca. Para conseguir algum dinheiro, trabalha com motoserra para madeireiros. Nasceu em Tailândia, no Pará. Nunca teve terra. Trabalhou com o pai num pequeno pedaço de chão que mal dava para sobreviver. Estudou apenas a Ia série e passou cinco anos com malária. Hoje, incomoda-se com a dificuldade para tratar da saúde. "Se a gente ficar doente, tem que sair daqui", explica. Mais uma vez, a estrada precária apresenta-se como um obstáculo para os moradores dos PDSs.
Otimismo
0 baiano José Francisco dos Santos também recebeu um lote. Chegou a Anapu com a família depois de ouvir pelo rádio que poderia conseguir um pedaço de chão. Plantou milho, arroz, três mil pés de cacau e 500 mudas de mogno. Com o dinheiro obtido na venda da produção, comprou um jumento por R$ 250 para se deslocar pela mata. "Acho que o PDS vai dar certo", prevê o colono. "Só falta o governo dar recursos para a gente trabalhar melhor", afirma.
Depois de obtida a terra, José Francisco passou a se preocupar com o futuro dos filhos. 0 mais velho tem sete anos e ainda não estudou. Uma escola começou a ser construída, mas ainda não foi concluída, nem tem professor.

Desmatamento limitado
Pelo planejamento dos PDSs, os colonos só podem desmatar20% do lote obtido do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Outras áreas podem ser derrubadas, desde que seja feito um manejo deforma a recuperar as partes exploradas em primeiro lugar 0 plantio do cacau é adequado para o projeto porque necessita de sombra para produzir bem e, portanto, muitas árvores podem ser preservadas.
Os colonos recebem a terra em regime de concessão. Em dez anos, se continuar no lote, recebe o título definitivo.

CB, 27/02/2005, p. 16

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