VOLTAR

Sonhar nao custa

OESP, Espaco Aberto, p.A2
Autor: NOVAES, Washington
31 de dez de 2004

Sonhar não custa
Washington Novaes
Nesta virada do ano, pessoas que têm poder de decisão no País bem poderiam mudar os rumos em algumas áreas. Nem precisaria ser nas mais críticas, mais amplas e mais angustiantes, como a da educação, da saúde, da segurança e do transporte públicos, do desemprego, da habitação. Poderia ser em alguns setores mais circunscritos, mas com enorme influência na qualidade de vida da população.
Já que estamos assombrados com os terremotos/maremotos que devastaram a Ásia, poderíamos prestar atenção ao despreparo para prever esse e outros tipos de "desastres naturais", que impede que dezenas de milhares de vidas sejam salvas a cada ano. Se no caso de terremotos a previsão é muito mais difícil, nos outros - inundações, ciclones, furacões, deslizamentos de terra - é perfeitamente possível. O despreparo brasileiro nessa área é inquietante. É preciso criar redes científicas de informação, como propôs em Buenos Aires, na reunião da convenção sobre mudanças climáticas, a ministra Marina Silva. É preciso ter centros sofisticados, aparelhados, com recursos financeiros. Além de vidas, muitas safras podem ser salvas.
Também não custa - a não ser interesses contrariados - tentar dotar o País de uma política nacional de resíduos sólidos. O respectivo projeto está parado há anos no Congresso, por causa da resistência de setores como o de embalagens, que se recusa a pagar pelos custos que gera e pela destinação do respectivo lixo - contrariando o princípio universal do poluidor/pagador. Seria possível avançar também para a redução do lixo e para mais reciclagem se qualquer gerador de resíduos, inclusive domésticos, fosse responsabilizado pelos seus custos. Avançar mais ainda se se decidisse entregar uma parte da coleta, da compostagem, da separação de materiais para a reciclagem e a própria reutilização/transformação destes a cooperativas (gerando postos de trabalho e renda para quem não tem).
Outro avanço - com ganhos na saúde e na qualidade da vida da população - poderia vir da solução da pendência jurídica entre prefeituras e empresas estaduais de saneamento (que têm redes interligadas em municípios de áreas metropolitanas), que paralisa a área de saneamento e contribui para o escandaloso número de residências sem coleta de esgoto, assim como para a ridícula porcentagem de resíduos coletados que são tratados - assoreando as bacias hidrográficas, gerando problemas que não é preciso repetir.
Na área da energia poderia haver avanços até sem dinheiro nenhum. Como, por exemplo, criando um programa nacional de conservação de energia. O "apagão" mostrou o quanto o País pode economizar. Por que não fazê-lo? Permitiria economizar investimentos em novas unidades e redirecioná-los para outras áreas carentes. Permitiria repensar a questão das usinas amazônicas (que, além de tudo, exigem subsídios governamentais nas tarifas para setores como o dos eletrointensivos). Permitiria esquecer a mal pensada intenção de retomar a construção da usina nuclear de Angra III (com custos de produção maiores que os de outras formas de energia e sem destinação para o perigoso lixo nuclear). Permitiria abandonar a inacreditável idéia de construir usinas termoelétricas (já temos dezenas delas paradas, custando uma fortuna à sociedade), que consumiriam carvão mineral chinês, altamente poluidor. Permitiria realocar recursos para programas de energias das biomassas, da energia eólica.
Juntamente com o repensar da questão energética na Amazônia, poderíamos fazer um estudo competente sobre os custos do avanço da agropecuária naquela região. Certamente nos ajudaria a tomar a decisão de, em lugar do avanço, manter o "laboratório em pé da floresta", como tem sido chamado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que propõe ali aplicar recursos consideráveis no estudo da biodiversidade, nosso potencial maior.
Poderíamos voltar os olhos com mais decisão para a agricultura familiar, grande empregadora, ainda responsável por quase 40% do PIB do setor e pela maior parte do abastecimento do mercado interno. Acoplá-la aos programas de reforma agrária, superar os conflitos. Trabalhar com afinco na utilização do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo da convenção do clima, que poderá contemplar pequenos projetos agroflorestais, de 200 a 400 hectares (com possibilidade de consórcios), capazes de seqüestrar até 8 mil toneladas anuais de carbono em cada um, com financiamentos dos países industrializados. É preciso difundir a informação no País, criar sistemas de apoio à formulação dos projetos e sua certificação.
Quem sabe se possa até sonhar com o Congresso nacional revendo algumas das posições que tem tomado na área dos transgênicos, para, sem impedir a pesquisa, aceitar normas de precaução, de exigência de estudos ambientais e epidemiológicos sempre que for o caso? Quem sabe se evolua até a explicitação de uma estratégia? Que queremos? Ser grandes produtores de alimentos transgênicos, sabendo que os mercados europeu e asiático os vêem com reserva? Ou podemos evoluir pelo menos para a separação geográfica dos plantios, que permita a certificação?
É possível até que, se evoluirmos em todas essas direções, concluamos que é preciso conceber uma nova estratégia para o País, que substitua a vigente há cinco séculos - a de exportadores de produtos sem valor agregado, ou de pequeno valor, arcando internamente com os insuportáveis custos ambientais e sociais. Quem sabe? Às vésperas de um novo ano, não custa sonhar.
Washington Novaes é jornalista

OESP, 31/12/2004, p. A2

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.