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Soluções inusitadas

O Globo, Ciência, p. 32
08 de Fev de 2012

Soluções inusitadas
Escudo para filtrar luz do Sol tem apoio de Bill Gates; tecnologia é aposta contra aquecimento

RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br

Lançar ao espaço um guarda-sol gigante de silício. Jogar no oceano espelhos flutuantes que reflitam a luz solar. Pintar ruas, estradas e telhados de branco para reduzir a absorção de calor. As técnicas de geoengenharia, que parecem enredo de ficção, ganham adesão crescente de centros de pesquisa, além de recursos de governos e grandes investidores, diante do impasse sobre o corte de emissões. O mais novo integrante do grupo é Bill Gates, que doou cerca de R$ 10 milhões ao Fundo para Pesquisa e Inovação no Clima e Energia (Ficer, em inglês). A iniciativa visa à criação de um escudo entre a Terra e o Sol, filtrando o aquecimento do planeta. Na arena científica, a geoengenharia será citada, no ano que vem, pela primeira vez em um relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Seus redatores ainda discutem que material poderá servir como base para o texto.
Gates, na verdade, já reforçara o cofre dos pesquisadores anteriormente, embora a quantia nunca tenha sido divulgada. O governo britânico, até 2009, contribuía com anuidades de R$ 27 milhões a trabalhos de geoengenharia. No fim daquele ano, a Royal Society, a mais antiga academia científica do mundo, recomendou que esses recursos fossem aumentados em dez vezes. A Casa Branca também está sendo pressionada a destinar mais recursos às pesquisas. Se atendesse todos os pedidos dos últimos dois anos, teria desembolsado R$ 3,4 bilhões com as novas tecnologias. Embora tenha economizado, assinou um cheque de consideráveis R$ 170 milhões.

Experimentos maiores proibidos
Os entusiastas do setor enfrentam uma moratória decretada pela Convenção sobre Diversidade Biológica. No encontro, organizado em 2010, a ONU proibiu trabalhos de campo de grande escala no mar e no espaço. A proibição, porém, é tão frágil que o encontro não definiu o que seria "grande escala".
- Existe um temor sobre as consequências de jogar ferro no oceano para estimular a produção de fitoplânctons, por exemplo - explica Suzana Kahn, vice-presidente do Grupo de Mitigação do IPCC. - Quando se trata do mar e do espaço, é difícil administrar a titularidade do local em que ocorrem os experimentos.
Autor da pesquisa da Royal Society que recomendou a multiplicação dos investimentos em geoengenharia, John Shepherd reconheceu, em artigo publicado pelo jornal britânico "The Guardian", as polêmicas levantadas pelo setor.
"É um assunto controverso, e com razão", escreveu. "O relatório alertou para a grande incerteza sobre a viabilidade, os custos, a eficácia e as consequências sociais e ambientais de quase todas as ideias da geoengenharia. Mas concluiu que, a menos que grandes cortes para as emissões de gases-estufa sejam feitos em breve, estas tecnologias serão necessárias. Precisamos de mais e de melhores informações. E só conseguiremos com as pesquisas apropriadas".
Uma das redatoras do novo relatório do IPCC, Suzana acredita que a geoengenharia ainda não produziu ensaios científicos suficientes para merecer um relatório próprio. Segundo ela, o apoio às novas tecnologias ainda está restrito a certos centros de pesquisa, como a Royal Society. Ainda assim, não descarta a possibilidade de que o conhecimento dessas soluções extremas seja disseminado - e, mais ainda, desejado - no futuro.
- Quem trabalha com ciência é naturalmente um curioso. É absolutamente compreensível que se queira pesquisar algo assim, mesmo que não dê em nada - pondera. - Mas, quanto mais adiamos as ações, mais drásticas elas vão se tornar. Se nossa meta for mesmo chegar ao fim do século com aumento da temperatura inferior a 2 graus Celsius, isso significa que, na segunda metade do século, nossas emissões de gases-estufa terão de se reduzidas abruptamente. E provavelmente ninguém vai querer fechar sua fábrica.
A alternativa à geoengenharia defendida por Suzana tem o apoio de Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Ambos acreditam que o padrão de consumo mundial - que se reflete na escassez de solo, água e na falta de local de despejo de resíduos - deve ser repensado.
- Não há como refletir sobre as mudanças climáticas sem mexer em nossa forma de vida, de consumo e produção - alerta Pinguelli. - A geoengenharia agrupa uma série de projetos fantasiosos, que parecem ter um parentesco com "Guerra nas estrelas". Pode ser que surja entre elas uma ideia brilhante, mas não devemos ter esta ilusão.
Das soluções já pensadas, o diretor da Coppe acredita que o cultivo de biomassa no oceano, aumentando a absorção de CO2, seja a mais factível.
- Talvez a fertilização do mar tenha sentido no meio do oceano, onde há menos formas de vida - ressalta. - Mas há outras tecnologias, não ligadas à geoengenharia, que já discutem como podemos aproveitar melhor a energia do mar.

O Globo, 08/02/2012, Ciência, p. 32

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