OESP, Nacional, p.A12
28 de Ago de 2004
Soltos 90 trabalhadores que viviam como escravos
Em Goiás, trabalhadores viviam em pocilgas e tinham de pagar por comida, diz auditor
Leonencio Nossa
BRASÍLIA - O Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho localizou ontem um grupo de 90 trabalhadores mantidos em regime de escravidão em duas fazendas de Campo Alegre de Goiás. Os fiscais constataram que os 90 viviam em alojamentos sem condições básicas de higiene e muitos estão doentes.
"Os trabalhadores foram alojados em verdadeiras pocilgas", disse o auditor Sérgio Carvalho, coordenador da operação, que reuniu quatro fiscais, um procurador e três policiais federais. Uma das propriedades onde se constatou trabalho escravo, a Fazenda Barra Mansa, pertence ao grupo Agrofava, que produz grãos. Procurada para comentar o caso, a administração da Agrofava não retornou o telefonema. A outra propriedade, a Fazenda São Joaquim, pertenceria a um empresário conhecido por Neto.
Os fiscais concluíram que os trabalhadores foram agenciados por um "gato" conhecido por João Paracatu em cidades de Minas e Maranhão. Eles recebiam R$ 300 por mês, mas eram obrigados a gastar com mantimentos, produtos de higiene e equipamentos de proteção, como botinas e luvas, vendidos nas fazendas. Paracatu, segundo os auditores, tinha ajuda de policiais militares. A ação dos fiscais na região produtora de soja, café e arroz deve continuar na próxima semana.
Atualmente, o Ministério do Trabalho mantém cerca de cem auditores divididos em seis grupos de fiscalização. Há equipes em Goiás, Pará (duas), Mato Grosso, Rondônia e Tocantins. O Código Penal classifica como escravidão os casos em que trabalhadores sofrem pressão física e psicológica, são enganados por intermediários e passam a contrair dívida para sobreviver nos locais de atuação.
Com a retirada dos trabalhadores das fazendas goianas chegará a 11.439 o número de pessoas libertadas nos últimos dez anos no País. Segundo dados do Ministério do Trabalho, o Pará, à exceção de 1996 e 1995, foi o Estado em que mais se constatou trabalho escravo. Só este ano foram soltas 589 pessoas em fazendas paraenses - foram 1.887 no ano passado e 1.448 em 2002. De 1995 para cá foram libertados um total de 5.698 trabalhadores no Estado. Logo em seguida, no período de 1995 a 2004, estão Mato Grosso (2.527 libertados), Bahia (1.243), Maranhão (1.216) e Tocantins (804).
Mais atenção - O coordenador-geral das equipes de fiscalização do Trabalho, Marcelo Campos, disse que os registros de trabalho escravo aumentaram nos últimos anos por causa da atenção maior dos últimos governos ao problema (ver quadro).
Campos explicou que os casos de trabalho escravo ocorrem com freqüência em áreas rurais avançadas em recursos tecnológicos, como é o caso das plantações de soja e café em Goiás. "Explorar trabalhador não é só coisa de fazendeiro arcaico. Geralmente, quem explora é o fazendeiro esclarecido, que usa intermediários para contratar trabalhadores e mora longe da fazenda, na capital."
OESP, 28/08/2004, p. A12
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.