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A soja não é vilã

OESP, Economia, p. B2
Autor: DI CIERO, Luciana
29 de mai de 2005

A soja não é vilã

Luciana Di Ciero

A polêmica em torno do avanço do cultivo da soja na floresta amazônica e no cerrado brasileiro se tornou o centro das atenções no início deste ano, quando o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicou o estudo Crescimento Agrícola no Período 1999-2004, Explosão da Área Plantada com Soja e Meio Ambiente no Brasil. O trabalho revela que a expansão nos últimos três anos das áreas cultivadas com soja, que cresce a uma média anual de 13,8%, não provocou o aumento do desmatamento da floresta amazônica nem do cerrado. Segundo o Ipea, o cultivo do grão avançou principalmente sobre pastagens degradadas, e não sobre "áreas virgens".
Um outro levantamento, também divulgado no início deste ano, revela que o crescimento das áreas de plantação de soja está deslocando os terrenos usados para a pecuária para dentro das florestas e, indiretamente, está produzindo o desmatamento. Esse estudo, denominado Relação entre Cultivo de Soja e Desmatamento, foi realizado por iniciativa do Grupo de Trabalho sobre Florestas e levou em conta questões relacionadas com a expansão da área cultivada, principalmente no Estado de Mato Grosso e na Amazônia brasileira, e os impactos gerados pela instalação de infra-estrutura de escoamento, como a construção de estradas. Apesar de influenciar o aumento do desmatamento de florestas, o trabalho concluiu que o grão não é o único fator a agir no processo.
A expansão da fronteira agrícola brasileira é uma questão complexa e abrange múltiplos fatores. Nos anos 1990, os avanços tecnológicos no setor agrícola mudaram as perspectivas e as previsões para o campo. O investimento em pesquisas e na modernização de implementos possibilitou ao agricultor brasileiro adaptar as variedades de soja em todo o território brasileiro. O cultivo de soja no Centro-Oeste e na Amazônia Legal se constitui num fato marcante para a sociedade brasileira, pois o grão promoveu o desenvolvimento da economia dessas localidades.
A soja é uma commodity importante para o País e não deve ser vista como a principal solução agrícola, em especial na Região Amazônica. Entretanto, a cultura deste grão não deve ser encarada como a grande vilã do desmatamento, pois ela pode ser uma alternativa de desenvolvimento para essa região e para a recuperação de solos e pastos degradados.
Luciana Di Ciero, agrônoma, é conselheira da Associação Brasileira de Tecnologia Meio Ambiente e Agronegócios (Pró-Terra). Home page:www.proterra.org.br. E-mail: ldiciero@esalq.usp.br

OESP, 29/05/2005, Economia, p. B2

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