OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: GRAZIANO, Xico
01 de Fev de 2005
Soja da boa ventura
Xico Graziano
Volta e meia o raciocínio perverso ronda o campo, denegrindo sua imagem. À moda fetichista, escolhe um produto e o transforma na fonte do mal. Já aconteceu com a cana-de-açúcar, com o eucalipto e o boi. Agora o maniqueísmo persegue a soja.
O mote para a execração da cultura advém de sua suposta influência na devastação da Amazônia. A expansão da fronteira agrícola, puxada pelo seu cultivo, estaria comprometendo a preservação das florestas nativas. Será verdade?
Análises do Instituto Sócio-Ambiental, entidade séria, indicam que áreas naturais estão cedendo lugar à expansão da soja.
Por outro lado, estudos do Ipea, órgão oficial com credibilidade, mostram que a expansão da cultura da soja se dá, predominantemente, sobre pastagens degradadas. Onde está a razão?
Ambos os estudos estão corretos. A divergência, aliás, comprova o cuidado a tomar com análises sobre a economia rural. No Brasil, a imensidão territorial e a diversidade regional são enormes. Estudos agregados quase sempre atrapalham a lucidez. Generalizou, errou.
A cultura da soja se expandiu por todo lado. Em algumas regiões, substituiu pastagens degradadas. Noutras, exigiu o desmatamento, seja de cerrados, seja de floresta densa. Neste caso, a abertura de novas áreas pressupõe prévia autorização dos órgãos ambientais, onde se estabelece a reserva legal, que na Amazônia é de 80% da propriedade. Nos cerrados, cai para 35%. Os impactos são assim minimizados.
Desmatar nunca é bom. Porém, desde há 5 mil anos, quando surgiu a agricultura no mundo, áreas naturais cedem lugar às plantações. Perde-se biodiversidade de um lado, ganha-se civilidade no outro. Temperar esse processo é, modernamente, o núcleo do raciocínio sustentável.
Já no primeiro caso, quando desloca pastos velhos, a expansão da soja representa uma bênção. Acontece que, ao ser implantada em terrenos desgastados, a cultura promove a fertilidade do solo, combatendo a erosão e elevando a produtividade. É lindo.
Exagero? Não. Há uma especificidade na soja. Sua planta pode ser considerada uma maravilha da natureza. Por quê? Porque ela favorece, de forma única, uma simbiose com bactérias, quer dizer, uma associação mútua, gerando um fenômeno biológico capaz de captar o nitrogênio existente na atmosfera. Do ar que se respira, 78% é nitrogênio.
Formam-se assim pequenos nódulos nas raízes da planta, carregados de nitrogênio, fundamentais na formação dos tecidos vegetais. Estima-se que 70% a 85% do N (símbolo químico do nitrogênio) acumulado na planta da soja advenham desse inusitado processo biológico, característico da família das leguminosas.
Essa é a razão pela qual, quando se faz adubação química na cultura da soja, a famosa fórmula NPK não carrega N. Ou seja, esse fantástico vegetal dispensa o gasto com adubação química nitrogenada, economizando energia e dinheiro. Por isso os agricultores orgânicos gostam dela. Coisa de natureba.
Já os cereais, que pertencem à família das gramíneas, não apresentam essa capacidade de arrumar seu próprio alimento. No cultivo de milho, trigo, arroz, cada hectare exige, no mínimo, 200 kg de fertilizante nitrogenado artificial, elaborado a partir do petróleo. Quer comparar? Cada 50 kg de fertilizante nitrogenado equivale, em energia, a 80 litros de gasolina. A soja, como se vê, é amiga da ecologia.
A agronomia descobriu fórmula de inocular as sementes de soja, grudando nelas as bactérias fixadoras de nitrogênio. Semeadas, elevam a capacidade de armazenamento natural do elemento nutritivo. Para ser eficiente essa tarefa o solo precisa estar corrigido da acidez, técnica que exige a adição de calcário. Esse foi o pulo-do-gato da tropicalização da soja no Brasil.
Sem o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Embrapa, esse feito não teria ocorrido. O pioneiro de sua introdução no Brasil foi um obstinado agrônomo, José Gomes da Silva. As primeiras variedades surgiram em 1951. Parecia uma heresia querer cultivá-la nos trópicos. Mas deu certo, graças principalmente ao melhoramento genético.
Os americanos e os chineses tremem com essas artimanhas dos agrônomos brasileiros. Oriunda da Ásia, clima temperado, a soja gostou dos trópicos e, a bem dizer, até prefere os solos arenosos do cerrado nacional. Leves e arejados, facilitam a fixação biológica do N atmosférico.
Ao contrário de ser execrada, a soja deve ser vista como uma dádiva alimentar. O grão de soja apresenta 35% a 50% de proteína em sua composição, ante 5% a 10% dos cereais mais famosos da mesa nacional. Além de muita proteína, o óleo de soja também abunda no grão. Sorte da nutrição dos pobres.
Moído, do grão resta o farelo, principal componente das rações animais do mundo, substituto moderno das fétidas farinhas de peixes e restos de carne, utilizadas antigamente no arraçoamento dos rebanhos. Deu na vaca louca.
Quem enxerga na soja o mal, que repense seus conceitos. Não se conhece cultura mais rica e bem-aventurada no mundo. Agora a medicina descobre os benefícios das isoflavonas, fitoestrógenos que combatem o câncer e regulam a menopausa.
Com tantos benefícios, é, no mínimo, intrigante acompanhar as críticas sobre a expansão da soja. Nenhuma outra cultura ofereceria cenário melhor para a ocupação das fronteiras virgens ou para a recuperação dos solos cansados. Por isso, surpreende a maledicência que, por sinal, agrada muito aos norte-americanos.
Com certeza, aprofundadas as discussões, o conhecimento vencerá a ignorância. E a virtude do vegetal derrubará a maldade da política.
Xico Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário da Agricultura de São Paulo (1996-98).
OESP, 01/02/2005, Espaço Aberto, p. A2
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