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Sofismas e o rio Pinheiros

FSP, Tendências/Debates, p. A3
Autor: TRIPOLI, Ricardo
16 de jan de 2004

Sofismas e o rio Pinheiros

Ricardo Tripoli

Na filosofia, o termo sofisma se refere ao argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa.
É à arte de sofismar, que remonta ao tempo dos hábeis oradores da Grécia Antiga, que têm se dedicado os políticos ligados ao PT que se opõem ao projeto de despoluição do rio Pinheiros, em execução pelo governo do Estado de São Paulo. A cada discurso proferido em tribuna, a cada artigo publicado na imprensa, a cada entrevista concedida a jornais e emissoras de rádio, tudo o que se encontra são sofismas.
O método escolhido pelo governo do Estado de São Paulo para a despoluição do rio Pinheiros é ao mesmo tempo simples e inovador. Resumidamente, o que se faz é jogar na água do rio um polímero - elemento químico que aglutina as partículas sólidas presentes no rio, ou seja, a sujeira -, oxigenando a água na sequência. Dessa forma, a sujeira flutua na superfície do rio e, então, pode ser facilmente retirada.
O projeto prevê também que a água do Pinheiros despoluído seja bombeada para a represa Billings, o que aumentará a quantidade de água disponível para o abastecimento doméstico na Grande São Paulo, além de propiciar o funcionamento da usina hidrelétrica Henry Borden, elevando dessa forma a oferta de energia elétrica na região metropolitana.
Numa estação piloto de flotação implantada num trecho do rio próximo à Usina Elevatória da Traição, peixes têm sobrevivido e procriado há mais de dois anos em pleno Pinheiros. O sucesso desse criadouro, que é monitorado pelo Instituto de Pesca, prova que a flotação é um método capaz de restaurar a qualidade da água, tornando-a própria para os usos desejados.

O que está por trás da oposição ao projeto de despoluição do Pinheiros é o medo de perder a eleição deste ano

No entanto, com medo de que esse projeto inovador e barato (tem custo de um décimo do de outras técnicas) pudesse modificar radicalmente o perfil de uma região das mais importantes na maior cidade do país, o PT tem esperneado. Mobilizou simpatizantes no Ministério Público e, com uma ação civil pública, obteve na Justiça a proibição dos testes do processo de flotação.
Um dos "argumentos" utilizados para criticar a flotação é a observação de que se trata de um método não-convencional de despoluição, de que processos diversos foram utilizados em países mais desenvolvidos e, invariavelmente, é citado o caso do rio Tâmisa, em Londres. Mas se esquecem de levar em conta que o famoso rio que corta a capital da Inglaterra, além de possuir características distintas, foi despoluído em 1872. Se tentássemos utilizar o mesmo método hoje em São Paulo, concluiríamos o trabalho de despoluição do Pinheiros daqui a cem anos. Não se trata, portanto, de um método viável.
Os petistas pretendem bloquear o processo de despoluição do Pinheiros porque a oposição a propostas formuladas por seus adversários políticos que possam efetivamente resolver problemas tornou-se uma estratégia calculada de atuação política do PT. Quanto melhor e mais abrangente for a proposta, com maior veemência ela é combatida.
O partido empenha-se para que persista o problema, de forma a alimentar a sua munição de críticas para utilização durante o processo eleitoral. Eleitos, os petistas passam a empunhar as bandeiras às quais, até o momento da eleição, se opunham sistematicamente. Sem cerimônia, lançam mão dos projetos propostos por seus adversários como se novidade fossem, de forma a se candidatarem à paternidade da solução do problema.
No âmbito federal, foi essa a premissa adotada pelo partido na discussão da reforma da Previdência. Em nível local, o estratagema vem sendo aplicado no caso da despoluição do rio Pinheiros. Pois o PT percebeu que se o Estado, governado pelo PSDB, obtém sucesso nessa empreitada, transformando o entorno do Pinheiros num oásis dentro da capital de São Paulo, num grande parque público, tal feito irá eclipsar qualquer intervenção urbana que tenha sido realizada pela prefeita do PT, colocando em grande risco a reeleição desta.
Em resumo, o que está por trás da oposição ao projeto de despoluição do rio Pinheiros é o medo de perder a eleição municipal deste ano. E, devido ao pânico eleitoral, os petistas abandonaram qualquer compromisso com a verdade, passando a se devotar à prática do sofisma.

Ricardo Tripoli, 51, advogado, é deputado estadual pelo PSDB-SP. Foi secretário de Estado do Meio Ambiente (governo Mário Covas).

FSP, 16/01/2004, Tendências/Debates, p. A3

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