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Sociedade civil promete assumir as rédeas de ações ambientais

O Globo, Especial, p. 4
23 de Jun de 2012

Sociedade civil promete assumir as rédeas de ações ambientais

A Rio+20 terminou ontem como um diálogo de surdos, em que os governos de 193 países reunidos no Rio pareceram não ouvir os apelos de milhares de organizações não governamentais, empresas, cientistas, academias e simples cidadãos do planeta.
Duas das mais importantes decisões foram adiadas: a definição dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, cuja conclusão foi agendada para 2013 com implementação a partir de 2015; e a discussão em torno do financiamento de iniciativas para atingir esses objetivos, delegada a um comitê intergovernamental cujos trabalhos devem se encerrar em 2014. Ambas as negociações só devem ser oficialmente iniciadas após a aprovação formal do documento da conferência pelos países membros das Nações Unidas na 68ª Assembleia Geral da ONU, que começa em setembro, em Nova York.
Diante de um documento final enfraquecido, líderes internacionais da sociedade civil decidiram ocupar o vácuo de poder e de propostas deixado pela própria conferência propondo um movimento global pela sustentabilidade. O apelo foi feito pelo ongueiro Kumi Naidoo, do Greenpeace, pela sindicalista Sharan Burrow, da União Internacional de Sindicatos, e pela representante da Cúpula dos Povos, a antropóloga Iara Pietricovsky.
A ideia é criar uma rede global que aproxime os movimentos, identificando propostas e críticas comuns. Em vez de defender só as bandeiras de cada grupo, o objetivo é criar uma agenda comum, para fortalecer alternativas ao modelo econômico atual e pressionar o poder público.
Ontem, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, recebeu das mãos de cinco líderes da Cúpula dos Povos um documento, de duas páginas e 16 parágrafos, com críticas e propostas, que nasceram dos debates que ocorreram no Aterro do Flamengo.
- É hora de todos sentarmos à mesa e esquecermos as divergências. A sociedade civil precisa se organizar, porque já sabemos que os governos não estão assumindo os compromissos necessários - protestou Naidoo.
O canadense Maurice Strong, que ocupou a posição de secretário-geral da Rio 92, é voz de peso que engrossa o coro:
- Parte do texto final da Rio+20 poderia ser impressa em papel higiênico. Há pontos importantes, mas há trechos muito fracos. Já o movimento da sociedade civil criou uma troca forte de experiências, que pode desembocar num movimento global mais organizado.
O secretário-geral da Rio+20, Sha Zukang, também foi enfático na reação às críticas:
- Ninguém está feliz com o nosso trabalho, mas esse é o nosso trabalho. Quando todos estão infelizes, todos estão felizes. Muitos governos assumiram compromissos em Copenhague (em cúpula sobre mudanças climáticas, em 2009) e, até hoje, não cumpriram. Prometer é fácil, difícil é cumprir.
Embora o documento final não inclua metas e compromissos específicos, a ONU afirmou, em balanço final da conferência, que mais de US 513 bilhões foram mobilizados em compromissos para o desenvolvimento sustentável. Além disso, 692 compromissos voluntários foram firmados por governos, empresas, grupos da sociedade civil, universidades e outros.
Rechaçando as críticas, a presidente Dilma Rousseff disse ontem que o resultado foi uma vitória da diplomacia brasileira e que se orgulha muito de o Brasil ter conseguido organizar uma conferência com respeito ao multilateralismo. Para ela a Rio+20 foi um ponto de partida, escrito, e nenhum país poderá esquecer ou deixar de cumprir o que foi acordado aqui.
- O que nós temos que exigir é que a partir deste momento as nações avancem. O que nós não podemos conceber é que alguém fique aquém dessa posição. Além dessa posição, todos podem ir, todos devem ir. Muitos países não quiseram assinar o financiamento. Agora temos que trabalhar para que isso seja colocado na pauta. Os países desenvolvidos não querem colocar, nós queremos - disse.
Emocionada, ela fez o discurso que encerrou a Rio+20, no qual festejou a participação da sociedade civil.
- Celebramos aqui a conferência mais participativa de nossa História - afirmou Dilma, lembrando que ocorreram mais de mil eventos paralelos no Rio durante estes dias.

(Camila Nobrega, Liana Melo, Maria Lima e Renato Grandelle).

O Globo, 23/06/2012, Especial, p. 4

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