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Sobrou para as cutias

OESP, Vida, p. A14
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
24 de Mar de 2005

Sobrou para as cutias

Marcos Sá Corrêa

Tinha de dar no que deu a intervenção do Ministério da Saúde em hospitais do Rio, com a Justiça autorizando a Marinha a instalar nos jardins históricos do Campo de Santana uma enfermaria de campanha. Nessa briga, as barracas são de guerra, mas a intervenção é um circo. E circo tem de armar a lona em praça pública.
Há vida em jogo nesta crise. Mas, desde que mostrou as cartas, há duas semanas, o governo federal disputa com a Secretaria de Saúde municipal, diariamente, a primeira página dos jornais. A tal ponto essa emergência embaralha as prioridades médicas com as prioridades jornalísticas dos interventores, que, na sexta-feira passada, montaram especialmente para as câmeras dos telejornais um desfile de 57 ambulâncias, mandadas de São Paulo no calor da crise para reforçar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
As carrocerias vieram pintadas por fora e ocas por dentro. Eram ambulâncias cenográficas. E os organizadores do corso avisaram que elas só ficarão prontas em três semanas. A pressa era só para para socorrer manchetes. A notícia propriamente virá no mês que vem, quando as vans se converterem de pleno direito em ambulâncias.
Como no lançamento do Fome Zero, o espalhafato faz parte da intervenção. É, antes de ser um programa de governo, um espetáculo beneficente, em que o show vem na frente e a causa humanitário, atrás. Entre os desenganados, salvou em primeiro lugar o ministro Humberto Costa. Perseguido pelo diagnóstico de incompetência desde que assumiu o cargo, ele saiu da fila de demissões de Brasília antes de acabar com as filas nos hospitais cariocas. E, de quebra, teve alta das páginas que publicam as reportagens de Dourados, em Mato Grosso do Sul, onde 12 crianças indígenas morreram de desnutrição aos cuidados da Fundação Nacional de Saúde. A última baixa ocorreu esta semana. Com as atenções voltadas para o caso do Rio, passou quase em branco.
Se a intervenção conseguiu abafar até Dourados, não há de ser a conversa das cutias que evitará a ocupação do Campo de Santana, para desafogar o Hospital Souza Aguiar, que fica em frente. Trata-se de um jardim público desenhado no século 19 pelo botânico francês François Marie Glaziou. Mas, na terça-feira, apoiando as barracas da Marinha, os jornais alegaram que aquele parque sempre foi usado em manobras militares. Na guerra da saúde, vale tudo. Até restaurar o Vice-Reinado.
E não é por ser o Campo de Santana a única opção para a Marinha. Segundo a prefeitura, daria para alojar as tais enfermarias móveis no pátio do próprio Souza Aguiar. Ali perto, subindo a Avenida Presidente Vargas, está sobrando o Sambódromo, esvaziado pelo recesso do carnaval. Do outro lado da avenida, fica o Hospital dos Servidores, que pertence ao governo federal e está caindo aos pedaços, com aparelhos sucateados e andares em ruínas.
Lugar não falta. Mas, cá entre nós, com suas fontes, cascatas e lagos, o Campo de Santana é muito mais vistoso. Na televisão, dá um cenário insuperável para as filas de 600 pacientes que a Marinha promete atender por dia. E não deixa ser um sinal de respeito à política ambiental vigente no Brasil desde 1500. A corda aqui sempre arrebenta do lado da cutia.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 24/03/2005, Vida, p. A14

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