Página 20-Rio Branco-AC
Autor: Juracy Xangai
03 de Jul de 2005
Organização norte-americana aprovou plano para tomar conta da Amazônia, desconsiderando governos e países da região
Palestra da professora Bertha
Becker foi realizada na sexta-feira, no auditório da Secretaria de Cidades
"A Usaid acaba de aprovar nos Estados Unidos um projeto que prevê a transformação da Bacia Amazônia inteira numa grande área de preservação ambiental, sobre a qual as decisões e administração serão feitas diretamente por Washington. Isso leva a perguntar como é que ficarão os governos nacionais e sua soberania sobre esta região que é nossa". Indaga, em tom de denúncia, enquanto fazia sua palestra intitulada "Amazônia: Geopolítica na virada do segundo milênio", a doutora em ciências e docente livre pela Universidade do Rio de Janeiro Bertha Becker.
Ela é membro de diversos comitês científicos nacionais e internacionais, inclusive do Grupo Internacional Consultivo do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais.
Bertha abriu o ciclo de palestras organizado pelo gabinete do senador Sibá Machado. A primeira delas aconteceu às 9 horas, no auditório da Secretaria de Cidades, e a segunda às 19 horas, no anfiteatro da Ufac. Amanhã, às 19 horas, também no auditório da Secretaria de Cidades, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, proferirá palestra.
Durante sua palestra ela deixa claro o conceito de que a Amazônia possui mais que uma diversidade biológica, cujo valor real ainda é desconhecido, mas também uma mal conhecida variedade de ambientes florestais, solos e culturas que caracterizam as populações regionais, as quais precisam ser respeitadas em sua identidade.
Sem meias palavras, ela reconhece que atitudes como essa de internacionalização e, porque não dizer de intervenção estrangeira na Amazônia é conseqüência dos conflitos políticos internos que comprometem a soberania dos países em que a Amazônia se localiza. "O Brasil nunca assumiu mesmo a Amazônia. No discurso afirmam que a Amazônia é prioridade, mas quando chega na hora de agir faltam dinheiro e estrutura adequada para fazer as coisas funcionarem. O Plano Amazônia Sustentável está pronto há três anos, guardado lá em Brasília. Isso fortalece o argumento dos estrangeiros de que não estamos cuidando da Amazônia", protestou.
Colocando suas idéias de forma prática ela conceituou o que considera essencial para garantir a sustentabilidade do desenvolvimento da Amazônia. "O simples preservacionaismo não resolve nosso problema e condena as pessoas ao atraso. Quero o aproveitamento dos recursos da floresta com a aplicação de tecnologias modernas que garantam sustentabilidade com justiça social para todos que vivem na Amazônia. Isso só será sustentável se todas as pessoas ganharem dinheiro com o meio ambiente e assim melhorarem sua qualidade de vida com dignidade sem precisar ficar dependendo de programas disto ou daquilo".
Ela elogiou especificamente o capital social, ou seja, a capacidade de organização do povo acreano em defesa de sua floresta e de suas tradições, mas cobrou resultados práticos do ponto de vista econômico para que as pessoas e suas comunidades, seja nas reservas extrativistas e outras áreas, consigam sua auto-suficiência financeira. Também fez uma resalva sobre o modelo de exploração madeireiro que vem sendo implementado: "Particularmente, eu não gosto do manejo, tenho muitas dúvidas, mas preciso estudar melhor o assunto para emitir uma opinião definitiva. Entendo que ele precisa ser feito com muito cuidado e responsabilidade para que chegue aos resultados desejados".
Lembrou que a idéia de uma Amazônia homogênea, selvagem e vazia de gente, conceito popularizado na década de 60 quando iniciou-se a política de expansão da fronteira agrícola para a região, já não existe mais. A Amazônia de agora é outra, descobrimos que há muitas amazônias dentre de uma mesma região, cada uma delas com características e identidades próprias que precisam ser respeitadas por meio de políticas específicas de desenvolvimento.
Revolução Amazônica
As ameaças à soberania e políticas malfadas que consomem imensas somas de recurso para não levar melhoria de qualidade de vida à população da Amazônia, sobretudo aos que vivem na floresta, comprometem o desenvolvimento regional para o qual Bertha propõem três estratégias básicas.
"Em primeiro lugar é preciso fazer uma revolução cientifica na Amazônia. Quando quis, o Brasil gerou milagres como transformar álcool em combustível, o cerrado em plantação de soja e a Petrobrás é a líder mundial na exploração de petróleo no fundo do mar. Precisamos usar a ciência para montar uma cadeia produtiva que comece lá na floresta agindo com eficiência e justiça até a biofábrica que vai agregar valor ao produto final que levará a marca da Amazônia. Enquanto a floresta e seus produtos não tiverem um valor econômico definido não poderemos competir com as commodities como a soja e outros produtos do agronegócio".
A segunda é ofortalecimento institucional que pode ser entiendido pelo empoderamento da população e dos governos locais como instância de decisão sobre o que acontece por aqui. "Mas é preciso estar claro de que para que o empoderamento da sociedade aconteça é necessário que as pessoas tenham renda para viver melhor e agir por si mesmas, essas duas coisas não existem separadas uma da outra".
O terceiro ponto é a regionalização dos programas de desenvolvimento econômico e social e das decisões de modo adequado a atender a multiplicidade cultural e de situações locais. "Nisso não só os governos, mas a imprensa tem papel fundamental que é o de colocar à mostra quem é o homem amazônida e como vê a si mesmo e a seu mundo, que tipo de desenvolvimento ele deseja. O problema está em saber quem e como será dirigida essa imprensa na formação de opinião porque a que temos hoje não expressa a opinião dos povos da Amazônia, mas de grupos e organizações de interesses diversos".
Destacou o fato de que a luta acreana conseguiu frear o avanço da fronteira agrícola que a partir do Mato Grosso expandiu as lavouras de soja por Rondônia e já atinge a Bolívia, Tocantins e Sul do Pará formando um grande cinturão que pressiona a floresta sempre em busca de novas áreas de plantio.
"Não adianta xingar porque não podemos desprezar a soja que é hoje a base de lucro imediato para as exportações do país. Mas ela também não precisa ser tão gulosa avançando sobre a floresta porque embora ainda não se tenha critérios para definir valores econômicos para a floresta, a Amazônia guarda o potencial de riqueza futuro para o Brasil, por isso é que se faz necessário impedir o avanço da soja sobre a região. É uma questão de sabedoria".
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