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Só 7,5% da Caatinga estão protegidos por meio de Unidade de Conservação

Diário do Nordeste - http://diariodonordeste.globo.com/
10 de Jul de 2013

Embora seja considerado por especialistas o bioma brasileiro mais sensível à interferência humana e às mudanças climáticas, a Caatinga têm apenas 7,5% de seu território protegido em Unidades de Conservação (UCs). Desse percentual, apenas 1,4% dessas reservas naturais são consideradas áreas de proteção integral. O alerta é do biólogo Bráulio Almeida Santos, do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da Universidade Federal da Paraíba (CCEN/UFPB), responsável pelo levantamento.

"A região Nordeste tem 364 reservas registradas no Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC). Apenas 113 (ou 31%) têm como objetivo proteger a Caatinga, embora esse bioma seja predominante em todo o Semiárido brasileiro. É uma contradição que precisa ser revertida", defende Santos.

Outro fator preocupante, segundo ainda o mesmo levantamento: praticamente metade das 113 UCs são particulares e apenas 9% têm plano de manejo. Na avaliação de Santos, a situação reflete a ideia errônea, porém disseminada durante muito tempo, de que a Caatinga seja um bioma pobre, homogêneo e no qual não há "quase nada a ser preservado".

"A Caatinga sempre foi o patinho feio dos biomas brasileiros. Em primeiro lugar, vem a preocupação com a Amazônia, a Mata Atlântica e o Cerrado. A imagem da Caatinga é a do solo rachado e a do gado morrendo de sede, mas é a região Semiárida com a maior biodiversidade do mundo", afirmou Santos. As espécies da Caatinga, no entanto, ainda são pouco conhecidas.

Conforme o Ministério do Meio Ambiente (MMA), foram descritas na região 932 espécies de plantas, 591 de aves, 241 de peixes, 221 de abelhas, 178 de mamíferos, 177 de répteis e 79 de anfíbios. No caso da flora, mais de 30% das espécies descritas são endêmicas, ou seja, não ocorrem em nenhuma outra região do mundo.

Endemismo

O índice de endemismo chega a 57% no caso dos peixes, 37% no caso de lagartos, 12% dos anfíbios e 7% das aves, segundo dados de Adrian Antonio Garda, do Centro de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CB/UFRN).

"O número de espécies descritas pode parecer pequeno quando você compara com os outros biomas brasileiros. Mas estamos comparando com biomas do país de maior biodiversidade do mundo e em condições climáticas completamente diferentes. Quando você compara com as regiões desérticas mais bem estudadas da América, a Caatinga apresenta bem mais do que o dobro do número de espécies e com altos níveis de endemismo. Isso apesar de mais de 40% do bioma nunca ter sido inventariado", garante Garda.

Umbuzeiro

Uma das plantas ameaçadas de extinção é o umbuzeiro. Extrair o seu fruto é a única forma de sobrevivência para muitas comunidades nordestinas. O pesquisador Iedo Sá, da Embrapa Semiárido, ressaltou, em entrevista ao Diário do Nordeste que a raiz do umbuzeiro é uma espécie de caderneta de poupança, que acumula água durante o período chuvoso para o restante do ano. "Uma das principais ameaças é a extração da raiz do umbuzeiro para a feitura de doces e licores", denuncia.

Na avaliação de Bráulio Almeida Santos, falta massa crítica dentro das universidades e de institutos de pesquisa locais para ampliar esse conhecimento e difundi-lo entre e os formuladores de políticas públicas. "É preciso levar as informações ao gestor. A falta de vontade política e de lideranças comprometidas com o uso racional da Caatinga é um dos obstáculos para conservação desse bioma".

Para Bráulio Santos, também é preciso derrubar o mito de que a Caatinga esteja pouco alterada. Segundo ele, estima-se que tenha sobrado apenas 54% do bioma. Os Estados que mais desmataram foram Bahia, Ceará, Piauí e Pernambuco.

O principal fator de degradação da Caatinga, hoje em dia, de acordo com Bráulio, é o desmatamento praticado para obtenção de lenha e de carvão vegetal. Cerca de um terço da lenha cortada é para uso residencial. A maior parte do carvão vai para siderúrgicas e para os polos de gesso e cerâmica do Nordeste.

O biólogo também citou como ameaças o uso indiscriminado de fogo em práticas agropecuárias, a introdução de frutas exóticas à região e as criações extensivas de caprinos, ovinos e bovinos. "Não defendo que se deixe de criar bode ou se pare de usar lenha. Isso é parte da economia e da cultura local. Mas é preciso ordenar o uso dos recursos, fazê-lo de forma racional".

Irrigação

Outra importante ameaça, por mais contraditório que pareça, é o uso excessivo de água para irrigação agrícola. "Na Caatinga, naturalmente, chove pouco e o solo é compacto e duro. Em vez de a água ser rapidamente absorvida e conduzida para o lençol freático, ela se acumula e traz os sais e os nutrientes existentes no solo para a superfície. Quando a água evapora, ocorre a salinização do solo, o que compromete a vegetação e a agricultura", explica Santos.

De acordo com o pesquisador, já existem na região núcleos de desertificação - áreas com alto grau de degradação ambiental onde o solo está exposto e exibe alto grau de erosão, há pouca diversidade biológica e pouca cobertura vegetal. Em março último, a reportagem do Diário do Nordeste visitou os quatro núcleos de desertificação reconhecidos pelo MMA: Irauçuba, no Ceará; Gilbués, no Piauí; Seridó, no Rio Grande do Norte; e Cabrobó, em Pernambuco.

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