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Siderúrgica leva multa de R$ 10 mi por 'chuva de prata'

OESP, p. A19
02 de Nov de 2012

Siderúrgica leva multa de R$ 10 mi por 'chuva de prata'
TKCSA, que opera num bairro do Rio, é autuada pela 3ª vez por emitir partículas ultraleves de resíduo de ferro e grafite

ANTONIO PITA, HELOISA ARUTH STURM / RIO

Moradores do bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, voltaram a ser afetados por uma nuvem de grafite na tarde de anteontem. O fenômeno, conhecido como "chuva de prata", é resultado das atividades da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), parceria entre a alemã ThyssenKrupp e a Vale, que tem uma usina na região. O pó deixou marcas nos carros, nas ruas e até no interior das casas.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) multou a empresa em R$ 10,5 milhões. É a terceira vez em pouco mais de dois anos que o fenômeno ocorre. A CSA já havia sido multada em R$ 4,6 milhões, além de ter de pagar uma indenização de R$ 14 milhões, por ocorrências semelhantes registradas em agosto e dezembro de 2010.
As multas nunca foram pagas, porque a indústria contesta os valores na Justiça. "Esse foi o terceiro cartão amarelo. Não haverá outro. Tem de respeitar a saúde das pessoas", disse o secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmando que a empresa pode ser embargada.
Moradores ouvidos pelo Estado relataram que os problemas com o pó de ferro haviam cessado mais de um ano atrás, mas voltaram a ser recorrentes nas últimas três semanas, à noite. A empresa nega que haja uma intensificação de sua produção no período noturno. "A gente vê à noite aquela nuvem de purpurina no céu. Aquele pó vem no olho e já começa a arder. E o pior é que entra em casa, na cama, na cozinha. A gente até fica com medo de fazer comida", reclama Márcia Cristina Soares.
A "chuva de prata" é caracterizada pela dispersão de partículas ultraleves de resíduo de ferro e grafite resultantes da produção de aço da siderúrgica. O rejeito poderia ser aproveitado comercialmente para a produção de recapeamentos, mas tem valor de mercado menor e é considerado um subproduto. O reaproveitamento do material poderia ser feito ao longo da linha de produção, mas isso não ocorre na TKCSA. A empresa mantém uma rotina de umidificação para evitar a dispersão do material e atribui o incidente ao clima "excepcionalmente quente e sem chuva" e às fortes rajadas de vento na terça-feira.
Queixas. As reclamações por problemas de saúde são constantes na região. A comerciante Marcela Dias França ficou um ano em tratamento por causa de uma infecção no pulmão. "Sentia dores terríveis na costela e pensei que fosse morrer. Hoje, tenho alergias, fico com o nariz entupido, como as coisas e não sinto o gosto. A indústria até ajudou quem estava desempregado, mas a que custo? Deixou muita gente doente."
O diretor de sustentabilidade da TKCSA, Luiz Cláudio Castro, diz que a taxa de incidência de problemas de saúde na população da área é idêntica à registrada antes da instalação da empresa e atribui as doenças respiratórias a outros agentes poluidores, como o tráfego de veículos e as queimadas. "Nossos funcionários passam por exames médicos constantes e não há um quadro de agravamento de saúde."
Segundo Mariana Palagano, gerente de qualidade do ar do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), as emissões podem causar problemas dermatológicos, asmas, alergia e irritação nos olhos. Embora o produto não seja tóxico, ela diz que a exposição permanente pode ser crítica. "É incômodo. Quem é sistematicamente exposto pode ter problemas."
É o caso da família de Domingas Mendes. Seus dois filhos, Gustavo, de 4 anos, e Vitória, de 8, são levados com frequência ao pronto-socorro do bairro. "Na última vez, levei minha filha, com sangramento nasal. Dava para ver a poeira no sangue. E ainda dizem que não faz mal."

OESP, 02/11/2012, p. A19

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