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Sessão teve clima tranqüilo

CB, Brasil, p. 17
28 de Ago de 2008

Sessão teve clima tranqüilo

Mirella D´Elia e Paloma Oliveto
Da equipe do Correio

Um aparato de segurança sem precedentes foi montado para o julgamento sobre a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol. Toda a área externa do Supremo Tribunal Federal foi cercada por grades. Homens da Polícia Militar ficaram de prontidão do lado de fora, onde índios e militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fizeram manifestações ao longo do dia.

Dentro do plenário, agentes da Polícia Federal foram destacados para garantir a paz. A assessoria do tribunal confirmou que medidas extras de segurança foram tomadas devido ao clima de tensão em torno da discussão. No entanto, os manifestantes demonstravam tranqüilidade. Um grupo de cerca de 50 pessoas ligadas ao MST e à Via Campesina levaram cartazes para apoiar os indígenas e fazer pressão pela manutenção da demarcação contínua. Os manifestantes chegaram cedo à Praça dos Três Poderes e só se retiraram com a interrupção do julgamento.
A agricultora Julciane Anzilago, da Via Campesina, teme que uma possível vitória dos produtores rurais de Roraima abra precedentes negativos para os sem-terra e os quilombolas. "Hoje, é com os índios. Amanhã, será com os camponeses. Diminuir a área indígena seria um retrocesso", acredita.

O cacique Martins Maacuni, da etnia Ingarikó, vive com outros 300 índios numa aldeia na fronteira com a Guiana e a Venezuela. Ele alega que a presença branca na região retira o espaço necessário para os índios trabalharem, caçarem, plantarem e pescarem. "Os fazendeiros e madeireiros acabam com a nossa sobrevivência", diz. O cacique conta que o clima na Raposa está tenso. "Eles (os produtores rurais) estão sempre nos perseguindo. Minha sobrinha morreu num conflito", conta.

Para o cacique Álvaro Tucano, da região do Amazonas, uma decisão contrária à homologação contínua da terra indígena é um desrespeito à Constituição. Ele disse esperar que os ministros do Supremo não se deixem levar por argumentações políticas. "Eles sabem que há interesses econômicos por trás de quem defende a fragmentação da Raposa. Mas estão acima disso", diz.

Orações
O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, a ex-ministra do Meio Ambiente e senadora Marina Silva (PT-AC) e outros parlamentares acompanharam o julgamento no plenário. A poucos metros dele estavam o arrozeiro e prefeito de Pacaraima (RR), Paulo César Quartiero - que chegou a ser preso pela PF no auge dos confrontos entre produtores rurais e índios - e o governador de Roraima, José de Anchieta Júnior.

"Os índios estavam aqui antes de os portugueses chegarem, mas não estão reivindicando o Brasil inteiro, só 1,7 milhão de hectares para 18 mil índios", disse a ex-ministra, defendendo a demarcação contínua. "Estamos tranqüilos", emendou Meira, rebatendo as críticas ao processo administrativo que levou à homologação da reserva.

Durante todo o dia, índios que assistiam ao julgamento fizeram orações nos intervalos da sessão. "É uma oração para dar força para os advogados e sabedoria aos ministros, para que eles possam decidir e enfrentar o poder econômico da região", explicou o cacique Júlio Macuxi.

CB, 28/07/2008, Brasil, p. 17

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