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Sertanista pedirá da ONU proteção a índios isolados

A Crítica (AM) - http://acritica.uol.com.br/
Autor: Elaíze Farias
21 de Jan de 2011

Sertanista Sydney Possuelo divulgou carta pública denunciando que não existe política pública para proteger os indígenas isolados da Amazônia brasileira e de países vizinhos. Segundo ele, a situação é crítica.

O sertanista Sydney Possuelo, considerado um dos mais importantes indigenistas do Brasil, lançou em dezembro passado uma carta aberta em defesa dos povos indígenas que vivem em isolamento na floresta amazônica.

Originalmente escrita apenas em espanhol, a carta tem agora versão em português, cuja cópia o sertanista enviou por email ao acritica.com. A carta solicita adesão de pessoas que defendem a proteção dos índios isolados.

O documento será apresentado ao governo brasileiro, organismos nacionais e internacionais, como Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ACDH) da Organização das Nações Unidas (ONU) e entidades como Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Possuelo informou à reportagem que, a partir deste mês, passará a residir na Nova Zelândia, acompanhando a esposa, que fará doutorado na área social naquele país.

"Estão organizando várias palestras na Nova Zelândia e Austrália. Terei bastante atividade. Mas nossa campanha em favor dos índios isolados vai continuar. Queremos angariar assinaturas", disse o indigenista.

O endereço de adesão para a campanha de Sydney Possuelo é endefensadelospueblosaislados@yahoo.com.ar.

Ex-diretor da Coordenação de Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai), Possuelo foi demitido do órgão em 2006 por fazer críticas à política indigenista do governo federal.

Na carta, Sydney Possuelo destaca que pouco se avançou na proteção dos indígenas isolados e que, como nunca antes, os povos em isolamento e seus territórios estão em risco.

"CARTA ABERTA EM DEFESA DOS POVOS INDÍGENAS ISOLADOS

Brasília, 15 de dezembro de 2010

Trabalhei mais de quatro décadas na selva amazônica. Há cinco anos, convoquei o primeiro encontro internacional em defesa dos povos indígenas isolados. Nos reunimos em Belém do Pará e ali propus a criação de uma Aliança Internacional para sua proteção. Digo sem angústia, mas com clareza: avançamos muito pouco nesse sentido. Sinto que a urgência de então tornou-se hoje uma ameaça definitiva: os povos em isolamento e seus territórios estão em risco como nunca antes.

Nos últimos anos, vi interesses que buscam tirar os povos isolados de suas terras e permitir assim a invasão de empresas petroleiras ou mineiras; vi como são assinados decretos e outorgadas concessões para explorar recursos naturais em zonas onde estes seres humanos habitam; vi índios mortos ou perseguidos por defenderem seus direitos; tenho sentido que seguimos considerando a Amazônia e os indígenas como um obstáculo às estratégias de desenvolvimento, como a que é encarnada pela Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana.

Represas, estradas, pontes estão sendo construídas na Amazônia, sem propor ações que de maneira efetiva protejam os direitos destes povos. E se persistirem estas atitudes, o destino dos povos isolados já estará determinado: eles desaparecerão.

Não podemos ficar indiferentes frente a este drama. É tempo de reagir e de que os Estados, os governos, as empresas, os organismos internacionais, as igrejas, as organizações não-governamentais, todos, dêem garantias de cuidado aos direitos humanos dos povos isolados da Amazônia.

É um dever de consciência e um imperativo moral. Não peço que detenham seus planos de governo, reivindico sim que usem uma parte do que gastam em obras de infraestrutura e nos investimentos em indústrias extrativas para preservar verdadeiramente os povos em isolamento contra toda violência.

Se, como os governos dizem, estes planos e obras são para viver bem e ter bem-estar, que incluam os povos isolados dentro desses benefícios. Eles só querem assegurar seus territórios. Protejamos isto. Que eles não paguem com suas vidas ou com seu desarraigo - como sempre foi - a falta de ações sinceras de proteção a seus direitos que, além disso, estão consagrados nas leis e tratados internacionais.

Se está a ponto de ser inaugurada agora a primeira rodovia interoceânica da América do Sul através da selva, o feito de que os povos indígenas em isolamento não sejam mais perseguidos ou retirados de seus territórios seria a melhor prova de responsabilidade e respeito que poderíamos dar.

No trecho entre Assis Brasil, no Acre, e Puerto Maldonado, em Madre de Dios, no Peru, uma zona que faz fronteira com Pando na Bolívia, os caminhões passarão incessante e perigosamente muito próximos a territórios povoados por eles. Que faremos para que isto não signifique mais ameaça à vida e mais devastação da floresta? É nossa oportunidade para mudar a história para sempre e evitar que chegue a hora fatal, a hora 25, quando já não se pode fazer nada mais.

A situação é crítica e todos deveríamos unir-nos. Não podemos permitir que uma parte da humanidade seja extinta. Os povos isolados têm que viver. São nossa essência mais pura, nosso impulso mais vivo. Um mundo sem eles não valeria a pena e no futuro não haveria perdão para uma tragédia tão grande que fazemos contra nós próprios e o planeta.

Sincera e afetuosamente,

Sydney Possuelo"

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