Tribuna de Imprensa-Rio de Janeiro-RJ
24 de Jan de 2003
Os seringueiros do Acre estão aprendendo a valorizar a diversificação de produção, após duas décadas de crise. Nos anos 80 e 90, a queda no preço internacional da borracha os deixou à mercê de madeireiros e negociantes inescrupulosos de produtos florestais, extraídos da mata de forma predatória. Agora, várias comunidades vêm trabalhando com organizações não-governamentais para racionalizar a extração de madeira, óleos, essências, sementes e frutos e agregar valor a tais produtos.
E uma das vias para tal mudança é a certificação não só da matéria-prima, mas de toda a cadeia de custódia. Foi o que fez a Associação dos Seringueiros de Porto Dias, do município de Acrelândia, na fronteira do Acre com a Bolívia, que ontem recebeu do Conselho de Manejo Florestal (Forest Stewardship Council ou FSC) sua certificação.
O selo verde atesta o manejo sustentável de 27 espécies de madeira de terra firme, com as quais os seringueiros estão trabalhando, e a cadeia de custódia dos produtos de uma serraria e uma marcenaria comunitárias.
A certificação abrange uma área de 4.209 hectares de um assentamento extrativista, beneficiando 13 famílias, que haviam recebido a titularidade das terras em 1991. A produção de madeira certificada deverá ser de 700 metros cúbicos/ano, parte dos quais será vendida em tora e parte serrada na comunidade ou transformada em objetos de decoração e utilitários, da nova marcenaria.
"Além disso, a comunidade está buscando a certificação para o óleo de copaíba e castanha", conta Marcelo Arguelles de Souza, do Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA), que apoiou os seringueiros durante os dois anos necessários para a obtenção da certificação.
Porto Dias é a segunda comunidade de seringueiros do Brasil a obter selo FSC. A primeira foi a do Projeto Agroextrativista Chico Mendes, de Xapuri, certificada no ano passado. E já existe uma outra comunidade interessada, iniciando o processo, em São Luiz do Remanso, no município de Vila Capixaba, também no Acre.
"Fizemos um levantamento junto aos compradores do mercado de São Paulo, que consome seis milhões de metros cúbicos de madeira em tora por ano", diz Leonardo Sobral, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). "Detectamos uma demanda de 20% deste mercado - ou 1,2 milhão de metros cúbicos - de madeira certificada, mas não há oferta: atualmente a Amazônia produz 28 milhões de metros cúbicos de madeira em tora e apenas algo entre 280 e 360 mil metros cúbicos possui certificação".
O estudo do Imazon foi feito em conjunto com a Amigos da Terra e a certificadora Imaflora, tendo resultado na edição do livro "Acertando o Alvo 2". O livro foi lançado ontem, no Acre, na cerimônia de certificação dos seringueiros de Porto Dias, com o objetivo de estimular novos produtores a buscar o mesmo caminho.
Na oportunidade, ainda foi realizado um seminário e lançado o vídeo "Ouro Verde", produzido pelo Imazon, em conjunto com o WWF-Brasil, com apoio da Usaid, e dirigido a empresários interessados no manejo sustentável de madeira na Amazônia.
"O WWF-Brasil acredita que o futuro da Amazônia passa pela proteção do seu patrimônio natural e por uma economia de base florestal moderna e sustentável, capaz de gerar renda e melhoria de qualidade de vida para a população local, sem deixar de ser uma floresta nem abrir mão de sua cultura própria", afirma Luiz Menezes, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil, sediado em Rio Branco.
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