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'Senador quer antecipar o desastre'

OESP, Nacional, p. A11
22 de abr de 2007

'Senador quer antecipar o desastre'
Ambientalistas dizem que intenção de Pinheiro com seu projeto é liberar mais áreas de MT para soja e cana

Roldão Arruda

Se for aprovado, o projeto de lei do senador mato-grossense Jonas Pinheiro (DEM) vai acelerar o desmatamento da Amazônia e transformar em realidade, num prazo menor do que o previsto, as piores previsões sobre a região. Essa é a opinião de ambientalistas que acompanham o debate no Congresso sobre a exclusão de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão da área da Amazônia Legal.

'A Amazônia está no centro das análises sobre mudanças climáticas e fala-se que corre o risco de se transformar, daqui a algumas décadas, numa savana, ou cerrado, em decorrência do desmatamento', observa o coordenador do Greenpeace na região amazônica, Paulo Adário. 'O que o senador pretende é criar a savana por meio da lei, sem esperar pelas mudanças climáticas que o mundo tenta evitar. Quer antecipar o desastre.'

Os ambientalistas enfatizam que, embora mencione três Estados no projeto, o objetivo real do senador é liberar mais áreas de Mato Grosso para o plantio de soja e cana-de-açúcar. 'O único objetivo é esse', assegura Raul Silva Telles Valle, do Instituto Socioambiental (ISA).

Na área mato-grossense que faz parte do bioma Amazônia e ocupa 54% do território estadual, os fazendeiros só podem desmatar 20% de suas propriedades, de acordo com o Código Florestal. Na região do cerrado, a lei permite eliminar 65% da vegetação nativa.

'O que se pretende é estender à região da floresta o mesmo índice do cerrado. Isso resolveria o problemão dos proprietários, que é o da reserva legal de 80%, sem alterar o Código Florestal', diz Valle. 'Esse é o interesse verdadeiro do projeto', endossa Adário. 'Sabem que a cana vai empurrar a pecuária para dentro da floresta restante.'

ORIGEM

A Amazônia Legal, que engloba áreas de nove Estados, surgiu em 1953, no governo de Getúlio Vargas, com o objetivo de unificar planos de desenvolvimento para uma região com características comuns. É um conceito mais político que geográfico.

Em 1966, no regime militar, o conceito foi reforçado. Na época, segundo Valle, os proprietários rurais apoiaram a iniciativa, porque assim podiam se beneficiar dos fartos recursos distribuídos na região pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

'Os fazendeiros acharam bom fazer parte da Amazônia Legal porque conseguiam verba da Sudam para desmatar a região', diz Valle. 'Agora querem sair, para continuar desmatando.'

Segundo Adário, o projeto contraria a orientação global para os países deterem os fatores causadores das mudanças climáticas - especialmente as emissões de carbono. 'No caso brasileiro, 75% dessas emissões são causadas pelo desmatamento e pelas queimadas.'

Para Valle, Pinheiro contradiz o governador Blairo Maggi (PR), seu aliado: 'O governador disse que o Estado pode ampliar as lavouras sem derrubar nenhuma árvore, pois existem muitas áreas de pastagens degradadas que podem ser exploradas. Tudo isso é contraditório.'

Frases

Raul Silva Telles Valle
Instituto Socioambiental
"O que se pretende é estender à região da floresta o mesmo índice do cerrado. Isso resolveria o
problemão dos proprietários, que é o da reserva legal de 80%"

"Esse é o interesse verdadeiro do projeto. Sabem que a cana vai empurrar a pecuária para dentro da floresta restante"

"Os fazendeiros acharam bom fazer parte da Amazônia Legal porque conseguiam verba da Sudam para desmatar. Agora querem sair para continuar desmatando"

OESP, 22/04/2007, Nacional, p. A11

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