O Globo, Economia, p. 25
29 de Mai de 2012
Sem trem-bala, Brasil vive com o 'trem-tatu'
'Fast food' regional marca a viagem na maior linha de passageiros, uma das duas únicas em operação no país
Henrique Gomes Batista
henrique.batista@oglobo.com.br
Enviado especial
PARAUAPEBAS (PA) e SÃO LUÍS (MA) - Para muitos, falar em viagem de trem gera nostalgia, a lembrança de um tempo em que os vagões eram sinônimos de charme, elegância e conforto. Para outros, o trem remete à modernidade, com os novíssimos trens-bala que cortam o Primeiro Mundo. Mas a maior linha férrea de passageiros do país está longe destes dois padrões. O serviço de 892 quilômetros, que conduz cerca de mil pessoas por dia entre o Maranhão e o Pará, é popular. Popular, porém eficiente e, diferentemente dos trens de outrora e das novidades de alta velocidade, com a cara do Brasil. Afinal, em que outro local se pode comer um fast food de tatu por R$ 5?
No terceiro dia da série "O Brasil que não viaja de avião", O GLOBO embarcou no trem operado pela Vale desde 1985, onde a maior parte dos passageiros prefere as "bandecas", como são conhecidos os PFs e as quentinhas na região. Sobretudo as pessoas que vão na classe econômica - o trem tem duas categorias de serviço, primeira e segunda classes. Isso porque o serviço das "bandequeiras" é mais barato que a refeição no vagão-lanchonete, onde um prato não sai por menos de R$ 8. E as "bandecas" têm o sabor do Meio Norte: muitas são de peixe amazônico, algumas são de frango e mesclam arroz com macarrão, como é hábito regional. Mas o chamariz de muitas delas é a saborosa carne de tatu, muito apreciada na região. Toda a transação é muito dinâmica, as pessoas só têm três minutos para comprar sua comida, o tempo que o trem fica nas paradas mais curtas.
Passageiros sonham com trem até São Paulo
Esse movimento intenso contrasta com a organização de uma empresa do porte da Vale, que leva sua experiência para o trem. As "bandequeiras" fazem lembrar que essa linha rasga uma das regiões mais pobres do país. Mas não é apenas na comida que isso fica evidente. As carências da população dessas localidades são percebidas antes do embarque. Leudi Ramos Pinto, que foi de Parauapebas (PA) para José Doca (MA), é um exemplo. Com sete meses de gravidez, ela voltava para casa após visitar os pais.
- Quero ter meu filho na minha cidade. Eu ainda não sei o sexo, ainda não bati o ultrassom.
Ela teve de enfrentar o desconforto de passar uma noite em claro em frente à estação de trem, pois sairia caro fazer duas viagens entre a casa de seu pai e a estação: uma para comprar o bilhete e outra, no dia seguinte, para embarcar.
- Mas eu não ligo de esperar, eu fico é alegre, por saber que vou voltar pra casa. Fico pensando nisso e o tempo passa rapidinho - afirmou Leudi acompanhada do filho Wesley, de quatro anos, e na companhia de dezenas de outras pessoas na estação, algo que se repete diariamente.
Há quem aproveite essas madrugadas na estação para faturar. Miguel Caetano de Souza, de 61 anos, vende laranja descascada a R$ 0,50, pedaço de bolo a R$ 1, caldo de carne, frango ou camarão a R$ 2, espetinho de carne a R$ 3 e espetinho de carne com arroz e farofa a R$ 5 em Parauapebas.
- Aqui é bom, mas depende do dia. Tem dia que dá R$ 250, mas venho sempre, não posso brincar, tenho que honrar todo mês um aluguel de R$ 200, não é mole - afirmou, desanimado, após uma noite não muito boa, onde a única mercadoria que esgotou foram as laranjas.
Para essas pessoas, pagar R$ 45 para percorrer os 892 quilômetros em 16 horas é muito melhor, mais rápido e barato que ir de ônibus - cuja passagem pode sair por até R$ 130, mais caro que o trem na classe executiva, R$ 90. Os dez vagões da área econômica não têm ar-condicionado, mas contam com algo fundamental: segurança.
- Aqui no trem eu vou estudando, aproveitando o meu tempo, tenho segurança. Nunca poderia ir com o laptop no ônibus, chama muita atenção. Aqui eu não corro risco. Além disso, a Vale tem que garantir a nossa chegada. Se for de ônibus e ele quebrar, ficamos na mão. Aqui não, a Vale tem que dar um outro transporte. Já aconteceu comigo, e eles terminaram nossa viagem de ônibus - afirmou a professora de História Maria dos Reis, que seguia de Açailândia para Buriticu.
Ela não sente falta da classe executiva. Mas o representante comercial Dorivan Bento Soares, de 64 anos, sempre paga o dobro do valor da econômica para ir nos dois vagões diferenciados:
- Tem ar-condicionado, menos confusão. Não me levanto nem para pedir comida.
Em geral, quem ocupa essas poltronas exclusivas são os funcionários da Vale. A empresa afirma que mantém o serviço por uma questão de responsabilidade social, embora esteja obrigada, por contrato, desde a sua privatização, a manter esta linha e a outra, entre Belo Horizonte e Vitória, justamente as duas únicas em operação para passageiros de longa distância no país. Sem revelar os números, a Vale afirma que não tem prejuízo com a operação.
Não há voos entre as duas cidades. Mas, se houvesse, não haveria muita demanda:
- Nunca voei. Tenho receio. Meu irmão mora em São Paulo e me convidou para ir lá assim, mas não tive coragem. O que eu queria é visitá-lo de trem, mas sei que isso não existe - disse a dona de casa Fabiana Costa Pereira, que voltava de uma vista aos pais em Marabá com a filha Maria Eloá, de 3 anos.
Especialistas criticam projeto do governo
Para eles, seria mais eficaz investir em linhas de média velocidade, o chamado 'trem-flecha'
Henrique Gomes Batista
henrique.batista@oglobo.com.br
Liane Thedim
liane.thedim@oglobo.com.br
RIO - Abandonado há décadas, o transporte ferroviário de passageiros voltou ao radar do governo com o Trem de Alta Velocidade (TAV), obra cujo custo é estimado oficialmente em R$ 30 bilhões, mas que, acreditam analistas, pode chegar a R$ 60 bilhões. Mas o projeto - quer quer ligar o Rio a São Paulo e Campinas em uma hora e meia a 300 quilômetros por hora e passagem por volta de R$ 200 - não sai do papel. A nova previsão, depois de diversos adiamentos, é que o primeiro leilão de licitação aconteça no primeiro semestre de 2013. O projeto, porém, é criticado pela maioria dos especialistas no setor.
- O trem-bala é fora da realidade. O trem de média velocidade, que chega a 180 quilômetros por hora, não é muito mais caro que o convencional, o que permitiria que tivéssemos ligação com mais cidades pelo mesmo custo do trem-bala - afirma Paulo Fleury, professor da UFRJ e diretor do Instituto Ilos.
Segundo Paulo Tarso Vilela de Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, o trem de média velocidade, também conhecido como trem-flecha, poderia ter mais estações intermediárias.
- A linha de média velocidade seria muito mais eficiente, poderia ter mais estações, mais cidades, que o TAV não consegue. Quando dispara a 300 quilômetros por hora, não pode parar. Faria a ligação Rio-São Paulo em três horas.
Hostílio Xavier Ratton Neto, professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, discorda e diz que o TAV também seria indicado para os trechos São Paulo-Curitiba e Rio-Belo Horizonte.
- As classes C e D estão andando de avião e não vão querer voltar a andar de ônibus quando a capacidade do setor aéreo estourar. Por isso, pensar no TAV é a alternativa mais possível. Até 300 quilômetros é uma distância indicada para percorrer de carro e acima de mil é grande demais, o tempo gasto nos procedimentos em aeroportos compensa.
ANTF diz que trem-bala reabriu debate sobre modal
Rodrigo Vilaça, presidente-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), acredita que o debate sobre o trem-bala foi positivo para colocar o transporte de passageiros sob trilhos em destaque no Brasil. Ele lembra que diversos governos começam a retomar projetos urbanos de metrô, trens e VLTs, e que, em uma segunda etapa, deverão ser retomados os trens de passageiros de longa distãncia. Apesar disso, ele não acredita que o modelo da Vale, que compartilha os mesmos trilhos com carga e passageiros, seja o melhor:
- Isso até pode ocorrer em agumas linhas, mas, nos locais mais populosos, isso é um complicador. Temos problemas hoje na Grande São Paulo com o compartilhamento. E na Europa quase sempre há linhas dedicadas ao serviço de passageiros - comenta ele.
O Globo, 29/05/2012, Economia, p. 25
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