OESP, Vida, p. A19
05 de Nov de 2004
Sem saneamento, praias e rios das áreas urbanas vivem poluídos
No Rio, os índices de balneabilidade foram os piores encontrados pelos pesquisadores
Karine Rodrigues e Carolina Iskandarian
RIO - Praias e rios que atravessam áreas urbanas no País apresentam sérios problemas de poluição, mostra a pesquisa do IBGE divulgada ontem. O quadro, dizem os especialistas, está intimamente associado à deficiência do saneamento básico, que é pior nas áreas rurais, mas ainda traz grandes transtornos para quem vive nas grandes cidades brasileiras.
"A qualidade das águas dos rios e das praias que cortam as regiões urbanas é muito ruim. E, no caso da água doce, não apresenta tendência de queda", alerta o coordenador de Indicadores Ambientais do IBGE, Judicael Clevelario. Segundo ele, ampliar a coleta de esgoto sem investir também no tratamento dos resíduos só torna a situação dos rios e mares ainda mais crítica. "Complica porque aumenta a quantidade de esgoto jogado no ambiente."
No indicador de balneabilidade, foram analisadas 15 praias, sendo 3 em 5 Estados: Pernambuco, Bahia, Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul. E foi na capital fluminense, com uma orla de fama internacional, que o instituto encontrou a pior situação. No caso, o da Praia do Flamengo, na zona sul, localizado em uma área privilegiada da cidade, próximo ao Pão de Açúcar. Lá foi registrado um valor médio anual de 8 mil coliformes fecais por 100 mililitros de água, oito vezes mais do que o limite aceito pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Os dados são de 2002.
As outras duas praias do Rio, Copacabana e Grumari, na Barra, zona oeste, ficaram dentro do padrão: 300 por 100 ml. Em São Paulo, as Praias de Enseada, no Guarujá, e Toninha, em Ubatuba, também conseguiram atender ao limite, mas Gonzaga, em Santos, atingiu 1.278 coliformes fecais por 100 ml de água. "É um retrato tendencioso porque não abrange o País inteiro, mas dá uma mostra da situação e aponta para a necessidade de refletirmos sobre o problema", observa Judicael.
Na avaliação de José Tavares Araruna, coordenador de Engenharia Ambiental da PUC-Rio, o problema na Praia do Flamengo é decorrente do esgoto descartado no Rio Carioca, que corta vários bairros da zona sul.
"Há muitas ligações irregulares, fazendo com que os efluentes cheguem ao mar sem tratamento", diz ele, chamando atenção para o fato de existir muitas ocupações irregulares nas encostas, onde costuma existir problemas de saneamento básico. "Isso também afeta a qualidade da água dos mares."
Água doce
A análise feita em rios de cinco Estados mostrou um dado que é novidade: o índice de poluição nas águas das Represas de Guarapiranga e Billings - na Bacia do Tietê -, que abastecem São Paulo. O nível de demanda química de oxigênio, que reflete a quantidade da substância necessária para degradar a matéria orgânica presente na água, há muito tempo ultrapassa os limites aceitos pelo Conama, que é de 5 miligramas por litro.
No período entre 1992 e o ano passado, houve uma queda no indicador na zona metropolitana/Alto Tietê, mas o número ainda assusta: passou de 39,5 para 35,7. A Bacia do Rio das Velhas, em Minas, tem o segundo pior resultado: 12,3.
Nunca vi essa praia suja diz vendedora
Tranqüilidade e sujeira: Alheia à poluição da Praia do Flamengo, a vendedora Tereza Vitor Martins, de 33 anos, tomava sol tranqüilamente anteontem, enquanto seus quatro filhos brincavam na água. "Sempre venho aqui e nunca vi essa praia suja. Não me preocupo com a poluição", disse ela, de folga do trabalho numa sorveteria.
Para Tereza, que mora em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, nem a distância de casa nem a água turva são empecilhos para levar a família ao Flamengo. "Gosto daqui porque a praia é tranqüila, as ondas são pequenas e as crianças ficam brincando", contou a vendedora, que afirmou nunca ter contraído uma doença de pele.
Já a estudante Iany Santana, de 19 anos, disse se preocupar com a poluição da praia, mesmo assim, leva seu filho Lucas, de apenas 3 anos, para brincar na areia. "O bom daqui é que tem muita família, muita criança. Fora isso, a praia não é boa porque é muito poluída."
Banho de mar na Praia do Flamengo é o que o oficial da Marinha Mercante Marco Terra, de 39 anos, e o estudante Leonardo Gonçalves, de 19, menos querem. Os dois amigos dizem que só freqüentam o local para se exercitar. Traumatizado com uma micose que acredita ter contraído na época em que entrava na água, há sete anos, Terra hoje se diz mais precavido. "Nem entro no mar. Só chego na beirada para molhar o pé de vez em quando."
OESP, 05/11/2004, Vida, p. A19
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