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Sem lugar ao sol

O Globo, Economia, p. 15-16
12 de Mai de 2014

Sem lugar ao sol
Governo cumpre apenas 10,8% da meta de 2 milhões de casas populares com aquecimento solar

Henrique Gomes Batista
henrique.batista@oglobo.com.br
Andrea Freitas
andrea.freitas@oglobo.com.br

Apesar da crise energética no país, com risco de tarifas mais caras e até de racionamento, o Brasil quase não avança no aquecimento e na geração de eletricidade solar. Os problemas ocorrem tanto em projetos de larga escala como na pequena produção doméstica. Nem mesmo os programas governamentais conseguem progresso significativo: em 2010, o governo anunciou um plano, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para instalar até o fim de 2014 placa solar para chuveiros em dois milhões de casas do Minha Casa Minha Vida. Até agora, segundo a Caixa, apenas 215.945 residências contam com o sistema, ou 10,8% da meta.
Na época, o governo apregoou que, além desta frente, apoiaria a instalação de 260 mil aquecedores solares com recursos de eficiência energética das distribuidoras e que a Caixa financiaria outros 400 mil aparelhos, chegando a um total de 2,66 milhões de casas com o sistema. Isso traria uma economia de energia equivalente ao consumo anual de Belo Horizonte e retiraria da atmosfera a emissão de gases do efeito estufa em volume igual ao emitido pela frota de carros de Brasília de então.
Mas isso não ocorreu. Passados quatro anos, o Ministério de Minas e Energia (MME) apresentou dados defasados e não soube informar qual o percentual alcançado de instalação de aquecedores solares das outras duas frentes além do Minha Casa, Minha Vida. Levando em conta a meta ampliada, de 2,66 milhões de casas, o cumprimento do governo pode ter sido ainda mais baixo que os 10,8% obtidos com o programa de habitação popular.
Em São Paulo, avanço de apenas 3,5 mil casas >
Além do descumprimento da meta, o governo usou tecnologia tradicional, na qual o consumidor tem de desligar o sistema em caso de falta de sol. Em 2010, o governo prometia adotar o inovador chuveiro flex , que faria isso automaticamente. Segundo a Caixa, a opção mais moderna era mais cara.
Na pesquisa realizada em 2012, 85% das famílias se mostraram satisfeitas com o sistema de aquecimento solar de água, que proporcionou economia de energia de cerca de 30%, equivalente a um valor entre R$ 20 a R$40 por família, gerando benefícios sociais, ambientais e econômicos para o Brasil e para essas famílias , informou a Caixa.
- Falta incentivo do governo. Por que clubes, hotéis e mansões têm os sistemas em seus telhados e as casas mais humildes não têm? - indaga Marcelo Mesquita, consultor da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava)que indica o uso conjunto das duas tecnologias: aquecimento solar de chuveiros e microgeração de energia, de forma complementar.
Em São Paulo, que fixou regras ambiciosas para 2020, o avanço até agora foi pequeno. Em 2010, havia 13 mil casas da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado (CDHU) com sistema de aquecimento solar e promessa de que todas as novas casas do programa teriam o sistema. Neste ano, o total chegou a 16,5 mil casas.
Na geração de energia solar, a situação não é diferente. E isso ocorre tanto com grandes consumidores como com o gerador residencial, o chamado minigerador distribuído . Regulamentado há dois anos, o Brasil contabiliza apenas 92 pequenos consumidores, como casas, comércios e pequenas indústrias, que geram energia, em geral com painéis solares, e enviam o excedente ao sistema nacional. A falta de avanço é creditada aos altos custos de instalação do equipamento - no mínimo R$ 20 mil - e à falta de financiamento adequado, além da tributação do setor, que pune quem opta pela autogeração, com a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) da energia enviada à rede, com exceção de Minas Gerais. Atualmente, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar) o país tem apenas 2,2 megawatts (MW) instalados com os microgeradores residenciais.
Por outro lado, a EPE anunciou para setembro o primeiro leilão exclusivo de energia solar. Ainda não há estimativas de valor e potencial, mas o objetivo é incentivar o setor. Segundo a EPE, a capacidade instalada total, incluindo grandes empreendimentos, é de 6 MW, ou 0,004% de toda a matriz instalada (126.755 MW).
- Esperamos o momento certo, de tecnologia mais desenvolvida e barata, teremos com a energia solar o mesmo desenvolvimento que tivemos com a eólica -afirmou Mauricio Tolmasquim, presidente da EPE.
Tolmasquim diz que é fundamental criar demanda para fomentar uma indústria nacional de painéis. Além disso, ressalta que os parques eólicos poderão instalar painéis solares em seus terrenos, o que reduziria custos de instalação e de solo.
Nivalde de Castro, do Gesel/UFRJ, afirma que esta medida pode ser uma solução, pois as energias solar e eólicas são complementares. Ele defende que os efeitos multiplicadores na economia são relevantes, pois há mais incidência de sol nos locais menos desenvolvidos do país.
Rodrigo Lopes Sauaia, diretor executivo da ABSolar e consultor da Intersolar, evento do setor que ocorre em agosto, em São Paulo, diz que o potencial brasileiro é imenso.
- A Alemanha é um dos países mais avançados na energia solar e a região do Brasil com menor incidência solar tem 40% mais potencial que a melhor região alemã. Já a região com maior incidência solar tem o dobro do potencial da melhor região da Alemanha - afirma ele.
O governo credita o fraco desempenho aos custos. Segundo o MME, o custo de geração de energia elétrica é da ordem de R$ 120 e o da eólica está em R$ 109,93/MWh. Na energia solar, o custo é da ordem de R$ 200/MWh, no melhor cenário. Em geral, o custo chega a R$ 300/MWh.
A energia é o primeiro insumo do sistema econômico. Se o preço elevar-se muito perde-se a competitividade econômica. Para a geração centralizada, em decorrência dos atuais custos de geração da energia solar, ela não é uma alternativa que preserve a modicidade tarifária , informou o ministério, em nota. Em 2013, o Brasil consumiu 124,9 TWh de energia elétrica no setor residencial, numa proporção de 24% do consumo total. Se por hipótese, 5% das residências vierem a ter autogeração nos próximos 10 anos (3,5 milhões de domicílios), o impacto na demanda total ainda seria pequeno, de 1,2%, e com pouca influência na demanda máxima , diz o governo.
Para o setor elétrico, a expansão restrita pode ser resumida em quatro fatores: custo alto de equipamento, falta de incentivo, dificuldades tributárias e problemas legais. Mesmo com a falta de incentivos, iniciativas isoladas avançam. Na quinta-feira foi inaugurado o projeto Maracanã Solar, parceria entre governo do Estado do Rio, Light e EDF, com capacidade de gerar 400 kW, equivalente ao consumo de 240 residências, num investimento de R$ 12 bilhões. Júlio Bueno, secretário de Desenvolvimento do estado, diz que o projeto é uma vitrine:
- Estamos terminando, com a PUC, um mapeamento do potencial da energia solar no estado, que deverá ficar pronto em 2015 - disse ele.

O Brasil nem começou. Está engatinhando', diz especialista
Custo elevado, falta de financiamento e tributação inibem expansão da energia solar em residências

Corpo a Corpo
RAFAEL KELMAN

Andrea Freitas

RIO - Diretor da consultoria PSR diz que o uso de energia solar para geração elétrica deve estourar no país, que tem condições favoráveis: muito sol e tarifas atraentes para empresas.

Quanto é possível economizar com a instalação de um sistema para energia solar?

Para cada kW (quilowatt) instalado, a economia anual na conta de luz é de R$ 840 para uma concessionária como a Cemig, com valor unitário com impostos igual a R$ 0,60/kWh. Com aumento na conta de luz a partir de 2015 igual a 20%, como comentado pelo mercado, o benefício anual ultrapassa R$ 1 mil. O investimento é da ordem de R$ 7 mil, portanto, o retorno do investimento seria obtido em sete anos. Considerando a vida útil do projeto, de 25 anos, é um investimento interessante, ganhando de aplicações financeiras, como poupança ou renda fixa.

O preço de instalação é entrave?

Um dos problemas é a falta de incentivo, como linhas de crédito. Os custos de painéis solares têm caído muito. Hoje, o kW instalado custa cerca de R$ 10 mil. Uma casa precisa, em média, de 2kW a 5 kW. É o valor de um carro. Poucos têm disponibilidade para desembolsar o valor. Há dez anos, o custo seria de R$ 250 mil, totalmente proibitivo. Só fazia sentido em casos muito específicos, como em satélites. A pessoa tem de estar muito certa de que vai funcionar para topar o investimento. Outro problema é a cobrança de ICMS sobre o consumo bruto. Com exceção de Minas Gerais, que dá isenção de cinco anos, a tarifa da concessionária é sobre o consumo líquido, mas os impostos incidem sobre o consumo bruto, sobre a geração solar.

Qual é a perspectiva para o Brasil?

O Brasil nem começou. Está engatinhando. Temos condições muito boas, com muito sol e tarifas altas. É uma opção que vai estourar. A regulamentação da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) é nova. As concessionárias estão começando também, recebendo os primeiros pedidos.

E quais são os obstáculos enfrentados para essa expansão?

A falta de conhecimento. Acredito que quando as pessoas começarem a utilizar vai ficar claro que funciona e essa tecnologia vai deslanchar. As pessoas ainda acham que o sol só serve para aquecer água. Mas acho que haverá um processo de difusão da informação, um boca a boca que vai fazer esse negócio acontecer a partir de 2015.

No Rio, apenas 13 clientes produzem energia renovável
Economia obtida em até 25 anos pode ser o dobro do valor investido

Andrea Freitas
Henrique Gomes Batista

RIO - Desde 2012, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) criou mecanismos que permitem a redução na conta de luz para quem tem micro ou minigeração de energia elétrica a partir de fontes renováveis. Mesmo assim, apenas 92 clientes em todo o país aproveitam o benefício. No Rio, somente 13 consumidores têm produção própria de energia a partir de fontes como a solar, que domina este segmento.
Para aproveitar a economia, é necessário solicitar à distribuidora a instalação de um sistema de medição com compensação, um leitor bidirecional. Dessa forma, é possível mensurar a quantidade de energia consumida da rede e a que é injetada na distribuidora. O número restrito de pessoas que contam com a microgeração de energia em casa ou em pequeno comércio é atribuído por especialistas ao custo alto e à falta de incentivos para instalação.
Dos clientes do Rio, oito estão na região da Light, sendo um deles comercial. Outros cinco, na área da Ampla. Embora o número seja pequeno, o total vai mais do que dobrar nos próximos meses, já que as duas concessionárias, juntas, analisam 28 pedidos de instalação de medidores bidirecionais.
A Prátil, empresa de instalação de placas solares para geração de energia do grupo Endesa, informa que o custo do sistema varia de acordo com o consumo. Para uma casa de três quartos e 180m², com uma família de quatro pessoas e consumo de 330kW/h mês, o custo médio total é de R$ 22 mil, considerando economia de 80% na conta de luz. No valor estão incluídos equipamentos, projetos e instalação. No longo prazo, com base na vida útil e garantia de equipamentos, de 25 anos, a economia pode chegar ao dobro do que foi investido.
pioneiro é entusiasta
O alemão Hans Rauschmayer foi o primeiro a instalar esse sistema no Rio, em agosto. Há 11 anos, quando se mudou para a casa onde vive, em Santa Teresa, já havia implantado aquecimento solar de água. Ano passado foi a vez de implantar a microgeração solar de eletricidade. O investimento no sistema de 2 kW foi de R$ 15 mil e a conta da casa caiu de R$ 150 para R$ 70:
- Os dois sistemas, de aquecimento de água e o de luz, são independentes e geram economia.
A motivação de Rauschmayer, no entanto, não foi apenas pessoal. Desde 2011, ele e o sócio, Mauro Lerer, estão à frente da Solarize, empresa de treinamento e consultoria em tecnologia ambiental. O perfil dos interessados em gerar eletricidade com a luz do sol inclui insatisfeitos com as concessionárias e com interrupções de fornecimento, diz Lerer. Mas este cliente acaba se frustrando, pois quando falta luz na rede, a geração solar é automaticamente desligada:
- É uma norma internacional de segurança: se uma casa estiver gerando energia, mas não consumindo, ela vai jogá-la na rede, colocando em risco o trabalhador que a estiver acessando para reparo.
Além da casa de Rauschmayer em Santa Teresa, no Rio há clientes de micro ou minigeração em Padre Miguel, Maracanã, São Conrado, Itanhangá, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes.
Mauro Passos, presidente do Instituto Ideal, que defende energias limpas, avalia que as incertezas quanto ao valor da tarifa de energia no futuro incentivam a busca por fontes alternativas:
- A geração solar de eletricidade já é uma realidade.
Ainda assim, Rafael Paixão, diretor da construtora Foca, diz que não costuma oferecer a instalação solar para geração elétrica a clientes. Desde a resolução da Aneel, em 2012, já instalou o sistema em três imóveis. Em todos os casos, foi o cliente quem sugeriu. Já o aquecimento solar da água é uma realidade em 99% das casas que ele constrói:
- O aquecimento da água permite redução de 30% a 40% no custo com gás ou com chuveiro elétrico. A instalação de um boiler a gás custa uns R$ 3 mil. O aquecimento solar sai a R$ 5.900, mas a vida útil é maior e o custo com manutenção, muito menor. O custo para a instalação de geração solar sai a uns R$ 42 mil para casas de alto padrão.
César e Alexandra Almeida estão construindo uma casa no Recreio com piscina, duas hidromassagens e ofurô. O casal decidiu que vai investir até R$ 6 mil para instalar aquecimento solar. Ao ser perguntada se desembolsaria R$ 40 mil para instalar painéis solares de geração de eletricidade, a psicóloga reclamou:
- É muito caro, a instalação fica inviável. Mas podemos mudar de ideia, já que em uns sete anos recupera-se o investimento.

O Globo, 12/05/2014, Economia, p. 15-16

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http://oglobo.globo.com/economia/o-brasil-nem-comecou-esta-engatinhando…

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