OESP, Economia, p.B7
Autor: BENSON, Todd
28 de Out de 2004
Sem investir em infra-estrutura, Brasil perde mercado global
Todd Benson
The New York Times
Todo ano, assim que a colheita da soja engrena, os brasileiros recebem um duro lembrete sobre os obstáculos de infra-estrutura que seu país precisa superar para se estabelecer como um grande comerciante no mercado global.
Centenas de velhos caminhões cheios de soja formam uma fila de mais de 80 km na estrada que leva a Paranaguá, um porto no Estado do Paraná que precisa desesperadamente de investimento para acompanhar a expansão das exportações agrícolas do Brasil.
No pico da temporada da colheita no Hemisfério Sul, em março, os caminhoneiros esperam à beira da estrada até 20 dias antes de descarregar, deixando compradores da China à Europa ansiosos e temendo custosos atrasos.
Gargalos similares e infra-estrutura fraca podem ser encontrados por todo o país, representando um desafio assustador para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Graças a um boom nas exportações, a economia se expande no ritmo mais rápido desde 1996 e está no caminho de crescer mais de 4% neste ano, reagindo depois de uma breve recessão em 2003.
Mas muitos economistas e líderes empresariais advertem que a recuperação poderá começar a perder impulso já em 2005 se o governo não encontrar maneiras de atrair bilhões de dólares em investimentos para melhorar a infra-estrutura do Brasil.
"Infelizmente, se algo não for feito urgentemente, até 2005, correremos o risco de vender produtos e não conseguir entregá-los no prazo", disse José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). "A economia simplesmente não pode continuar crescendo nesse ritmo com a infra-estrutura que o país possui." O Brasil fez progressos significativos nos últimos anos no estabelecimento de suas credenciais de comércio, primeiro sob o presidente Fernando Henrique Cardoso e agora com Lula, que assumiu em janeiro de 2003. Embora o Brasil, a maior economia da América do Sul, ainda responda por menos de 1% do comércio global, as exportações aumentaram de 6,5% do PIB em 1998 para 17%. Neste ano, as vendas ao exterior já ultrapassaram a soma alcançada em 2003, chegando a US$ 76,9 bilhões, e o País caminha para concluir 2004 com um recorde de US$ 94 bilhões em exportações, segundo a projeção mais recente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
A maior parte do crescimento ocorreu a partir de 1999, quando a decisão do Brasil de desvalorizar o real tornou suas exportações mais competitivas nos mercados mundiais. Mais recentemente, o apetite voraz da China por mercadorias como soja e minério de ferro ajudou a impulsionar a onda de exportações. Além disso, Lula, que fez do aumento das exportações uma prioridade de seu governo, tem viajado bastante em busca de novos mercados para os produtos brasileiros.
Mas a ascensão do Brasil no cenário global também expôs profundas carências em casa. Como Paranaguá, quase todos os portos do País lutam para suportar o crescente fluxo de produtos. Com raras exceções em Estados mais desenvolvidos, como São Paulo, as estradas estão gastas e esburacadas, tornando custosa e lenta a viagem do cinturão agrícola à costa, para o embarque. Além disso, a rede ferroviária do Brasil praticamente não foi expandida desde 1970, quando transportava apenas 50 milhões de toneladas de carga por ano. Neste ano, espera-se que cerca de 300 milhões de toneladas de produtos sejam transportadas de trem.
"A rede ferroviária não avançou um só quilômetro em mais de 30 anos, e mesmo assim está suportando cinco vezes a carga para a qual foi construída", afirmou Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústria de Base (Abdib). "Ela não pode agüentar mais que isso." A Abdib estima que, para a economia brasileira continuar crescendo a um ritmo anual entre 3,5% e 4%, o País precisa investir pelo menos US$ 20 bilhões por ano em infra-estrutura, especialmente em energia e logística. No entanto, por ter de manter um grande superávit fiscal para reduzir sua pesada carga de dívida, o governo gasta apenas uma fração dessa quantia.
Neste ano, o governo de Lula reservou apenas R$ 10,4 bilhões, ou cerca de US$ 3,5 bilhões, para gastos em infra-estrutura. Em sua proposta orçamentária para 2005, o governo reservou R$ 11,4 bilhões para infra-estrutura. Espera-se que o Congresso eleve a quantia para perto de R$ 15 bilhões, ou pouco mais de US$ 5 bilhões.
Assim, deixa-se para o setor privado a tarefa de preencher a lacuna de US$ 15 bilhões. Mas alguns investidores têm relutado em agir, preferindo esperar até que o governo de tendência esquerdista de Lula - que inclui vários funcionários do alto escalão que no passado condenaram o capitalismo e os investidores estrangeiros - ofereça uma regulamentação mais amigável para o investimento privado.
OESP, 28/10/2004, p. B7
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