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Sem fiscalização, madeira ilegal é levada ao Peru

O Globo, O País, p. 16
08 de Jan de 2012

Sem fiscalização, madeira ilegal é levada ao Peru

Roberto Maltchik
roberto.maltchik@bsb.oglobo.com.br

BRASÍLIA. Toras de madeira nobre boiam como jangadas no leito do Rio Javari, um dos principais afluentes do Solimões, entre Brasil e Peru. São resultado do desmatamento ilegal feito por contrabandistas peruanos que fazem corte seletivo do que sobrou de cedro no lado brasileiro da fronteira, aponta investigação da Polícia Federal. O material vaga pelo rio diante de uma das quatro lanchas blindadas que a Receita Federal comprou, em 2007, para fiscalizar contrabando e coibir crimes transnacionais no Norte. Mas as embarcações estão paradas há dois anos.
Cada uma custou R$ 4 milhões.
Os troncos descem o rio em direção à ilha peruana Islândia, onde a madeira é processada, antes da exportação para México e EUA. Segundo a PF, parte do produto brasileiro é levada ao Hemisfério Norte por duas embarcações mexicanas, "Yacumama" e "Yacucaspi", que já foram interceptadas com pasta base de cocaína. A madeira é incorporada às cargas legalizadas de madeira extraída do lado peruano.
PF e Ibama reconhecem que é praticamente impossível coibir os crimes, dada a dimensão amazônica, a proximidade com a fronteira e a falta de pessoal e de equipamento. O coordenador do Ibama em Tabatinga (AM), Erland Gomes, diz que o contrabando de madeira é até pequeno em relação ao de animais; e que as operações com PF e Exército coíbem minimamente os crimes.
E se diz perplexo ao ver a lancha da Receita parada no Javari:
- Estou há três anos aqui na fronteira com Peru e Colômbia.
Nunca tive uma lancha. O que essa lancha da Receita faz?
Segundo a PF, cedro e mogno cortados no Brasil são acrescidos aos carregamentos do Peru, que partem de Estirão do Equador (AM) até Atalaia do Norte (AM) e Benjamim Constant (AM), rumo a Tabatinga. A madeira brasileira seria "esquentada" na serraria peruana Fisa, que diz comercializar madeira legal.
A PF admite que os crimes poderiam sofrer um revés caso o Veículo Aéreo Não Tripulado (Vant) já estivesse operando.
Mas o único Vant disponível está na fronteira com o Paraguai.
O SindiReceita aponta que nenhuma das quatro lanchas compradas em 2007 pela Receita está operando. A Receita admite que a burocracia impede o funcionamento de 11 lanchas blindadas, que custaram R$ 45 milhões, e diz que negocia com a Marinha para reparar as embarcações.

O Globo, 08/01/2012, O País, p. 16

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