Jornal de Brasília, Cidades
29 de Nov de 2007
Sem desperdício
Hidrômetro individual reduz consumo em 30%
Luciene Cruz
A instalação de hidrômetros individuais em prédios e condomínios residenciais representa uma redução no consumo da água de cerca de 30%. Em alguns casos, o valor final da taxa de condomínio foi reduzido em mais de R$ 100. Isso porque a cobrança de água passou a ter o mesmo sistema de medição da energia elétrica. Desta forma, cada morador paga pelo próprio consumo, em vez de um valor total ser dividido pelo número de apartamentos.
No bloco K da SQN 308, por exemplo, o condomínio baixou de R$ 480 para R$ 360. A economia no bolso dos condôminos foi de R$ 120. Segundo o síndico Odonalto Ribeiro, 63 anos, a mudança trouxe apenas vantagens aos moradores. "Agora, os desperdícios acabaram. Se tiver alguém insatisfeito, é porque não tinha preocupação com o racionamento de água", avaliou. No prédio, com 48 apartamentos, a média da conta de água é de R$ 6 mil. No entanto, houve meses que esse valor foi de R$ 10 mil.
Sistema antigo
Na antiga cobrança, esse montante era dividido entre todos os apartamentos. Com isso, independentemente de ter usado a água ou não, o morador tinha que desembolsar uma média de R$ 125 pelo consumo. Em algumas situações, o valor chegou a R$ 208. "Ter o consumo aumentado de uma forma repentina demonstra que houve desperdício de alguém e não é justo todos pagarem por isso. Valor muito alto significa abuso dos moradores", observou o síndico. A adaptação do sistema, segundo ele, custou R$ 69 mil. Desde as implantação do novo método de medição, o consumo de água caiu em 33%.
Quem mora sozinho ou passa muito tempo fora de casa ficou satisfeito com a nova forma de cobrança. É o caso da aposentada Maura Melo, 77 anos, que este mês pagou apenas R$ 27 pela conta de água. "Eu moro sozinha, nem empregada tenho. Ficou muito mais justo. Antes, eu tinha que pagar pela água que as outras pessoas consumiam. É claro que eu gasto muito menos que uma casa com cinco pessoas, por exemplo. Agora, todos vão evitar o desperdício porque vai pesar no bolso", afirmou.
A medida terá de ser seguida por todos os condomínios e prédios do DF, nos próximos três anos. Os que não possuem o equipamento, terão de se adaptar no prazo determinado pela lei.
Medida questionada
A utilização de hidrômetros individuais voltou a ser discutida, ontem, em audiência pública promovida pela Agência Reguladora de Águas e Saneamento do Distrito Federal (Adasa). A Lei 3.557/05 prevê a obrigatoriedade da instalação de hidrômetros individualizados para cada unidade habitacional do Distrito Federal.
Apesar da obrigatoriedade, ainda existe quem questione a substituição do sistema medidor de água. Devido a esses questionamentos, a Adasa promoveu uma audiência pública entre os moradores.
Debate
Durante o debate, o engenheiro da Agência, Paulo Guimarães Júnior, apresentou um estudo, feito pelo órgão, que comprova a redução no consumo. Do total de cinco mil prédios residenciais existentes no DF, apenas 250 já se adequaram ao novo sistema. Destes, 13 foram analisados, nos últimos meses. A avaliação apontou que a economia feita, durante um mês, apenas nestes edifícios, seria suficiente abastecer uma população de até 11 mil habitantes, por um dia. A economia foi de 1.700 metros cúbicos de água.
Segundo o especialista, apesar do investimento necessário para a mudança dos hidrômetros, essa é a melhor alternativa para o uso racional de água, que é um recurso escasso. O valor varia de acordo com a quantidade de apartamentos. "É um benefício em potencial, ninguém vai querer pagar mais por conta de desperdício. O morador vai consumir apenas o necessário", afirmou.
"É um sistema de racionalização de água e melhor distribuição do custo", definiu o diretor da Adasa, Paulo César Montenegro. As sugestões dos moradores serão analisadas pela agência reguladora. "Estamos ouvindo a sociedade para fazer um aperfeiçoamento do sistema", completou. Os prédios antigos terão prazo para fazer a adaptação até janeiro de 2010.
Mudança de hábito
Mesmo nos prédios em que já foram instalados hidrômetros, os consumidores devem ficar ao desperdício de água dentro de casa. Hábitos simples podem fazer com que o consumo seja alto. Para se ter idéia, quando se escova os dentes com a torneira aberta, o desperdício é de 80 litros. Já quem lava carro com mangueira em meia hora este valor aumenta para 560 litros.
Ninguém vai querer pagar mais por conta de desperdício. O morador vai consumir apenas o necessário
Paulo Guimarães Júnior, engenheiro da Adasa
Consumo alto em Brasília
Dentre os recursos naturais, a água hoje é o mais ameaçado do planeta. Se não houver moderação no consumo, alertam os especialistas, a escassez será inevitável. No entanto, são poucos os que realmente cuidam para a manutenção do recurso, que é precioso. Brasília é a última capital no ranking de perda de água das capitais brasileiras, com 27,3%. Parece pouco, mas o percentual representa 142 milhões de litros de água que deixam de chegar à casa do consumidor. A quantidade é suficiente para abastecer uma população de mais de 776 mil habitantes ou encher 57 piscinas olímpicas.
A capital de Rondônia, Porto Velho, com 78,8%, lidera os índices de perda de água. Isso significa que mais da metade da água produzida no estado não é utilizada no consumo. As estatísticas fazem parte de um estudo realizado pelo Instituto Socioambiental para a campanha "De Olho nos Mananciais".
Apesar de estar na melhor colocação nacional, a capital Federal ainda está longe da média aceitável de despercídio, que varia entre 15% e 20%. A perda considerada na pesquisa está relacionada ao caminho que a água faz desde a estação de tratamento até a torneira do consumidor, ou seja, não se trata do desperdício da população.
Vazamentos
Do total 522 milhões de litros de água produzidos diariamente no DF, apenas 380 milhões de litros chegam à casa do brasiliense. A perda é provocada por vazamentos ou fraudes nas redes (chamadas de "gatos") ou nos mananciais de abastecimento. A captação irregular de água traz danos irreversíveis à população. "A água bombeada de forma incorreta provoca um descontrole. É preciso maior manutenção da rede e aumento da fiscalização", apontou a coordenadora da campanha, Marussia Whately.
Segundo a pesquisadora, o fato de Brasília ser uma cidade nova contribuiu para os resultados positivos. "Além de nova, foi planejada. Diferentemente de São Paulo, por exemplo, que possui tubulações com mais de 100 anos", exemplificou. Além disso, a pesquisa foi feita apenas no DF. A idéia é refazer o estudo em 2008, considerando também as cidades do Entorno. "A diferença deve ser significativa", prevê a coordenadora da campanha.
O objetivo da campanha é mobilizar a população para o uso racional de água. Os especialistas mostram que a própria expansão e o desenvolvimento das cidades provocam o esgotamento dos mananciais. Com isso, a retirada de água é feita cada vez de lugares mais distantes, o que se torna bastante caro.
Outros números mostram que a quantidade utilizada de água pelos brasilienses é ainda mais alarmante. No DF, cada habitante consome diariamente cerca de 183 litros. A média nacional é de 150 litros/dia. Número que extrapola as recomendações das Organizações das Nações Unidas (ONU), que é de 110 litros diários por pessoa.
Tem gente que é contra
A diferença no uso do hidrômetro individual pôde ser observada na prática. A reportagem do Jornal de Brasília esteve no local onde ficam os equipamentos (308 Norte). Em uma olhada rápida, foi possível observar o consumo de dois apartamentos. O relógio medidor do primeiro acusava o consumo de 5.782 litros, enquanto o segundo mostrava 15.556. "Não é justo eles pagarem o mesmo valor se não utilizam a mesma quantidade", disse o síndico Odonalto Ribeiro.
No bloco J da mesma quadra, o novo sistema de medição está em fase de implantação. Apesar da cobrança ser feita de forma individualizada, há quem seja contra a mudança. "Existem três condôminos que são contra a mudança decidida em assembléia pela maioria, porque eles não querem destruir a reforma que fizeram", comentou a síndica do edifício, Severina Marques, 70 anos. Em alguns apartamentos, é necessário quebrar a parede para instalar a tubulação. Apesar da contrariedade destes moradores, as obras continuam. "A mudança é questão de justiça e conscientização ecológica. Não dá para desperdiçar água dessa forma" completou.
Cuidado começa em casa
No Distrito Federal, os moradores dos Lagos Sul e Norte são responsáveis pelo maior consumo de água, que chega até a 600 litros diários, segundo dados da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb). Número bem diferente de regiões mais carentes como Santa Maria e São Sebastião, que consomem em média, 190 litros por dia.
Da água que abastece o DF, 65% são provenientes da Barragem do Descoberto. Outros 25% da Barragem de Santa Maria/Torto, que fica dentro do Parque Nacional, além de 6% da Barragem Pipiripau, que abastece Planaltina e Sobradinho. Os 4% restantes são pequenas captações que atendem comunidades específicas, segundo dados da Caesb.
Consciência
Em meio à onda de desperdício, é possível encontrar quem tenha consciência e use a água moderadamente. É o caso de Delza Afonso e José Cezário, ambos com 63 anos, que são casados. Ela é dona de casa e ele é aposentado. Ambos passam a maior parte do tempo dentro da casa, de 120 metros quadrados, no Guará II. Como moram sozinhos, os cuidados com o lar ficou por conta deles, que limpam tudo pessoalmente. "Faxineira é muita cara e elas ainda abusam do uso da água", ressaltou Delza. A prova da economia é mostrada na conta. A última paga foi de R$ 27. "Não gasto mais que o necessário", emendou.
Ela garantiu que a limpeza da área da frente da residência é feita com água de mangueira, mas apenas a cada 15 dias. No quintal, a lavagem é feita com a água usada para lavar roupa, uma vez por semana. "Sempre tive preocupação em não gastar muito. Não tem necessidade de lavar o tempo todo", afirmou.
O marido segue o exemplo: "Não dá para desperdiçar água. Nos dias de hoje, a gente corre o risco de ficar sem", completou. A economia também é seguida pelos cinco filhos, que já saíram de casa. "Hoje, eles têm a mesma preocupação na casa deles", garantiu a dona de casa.
A doméstica Jaqueline Ramos, 25 anos, trabalha, há apenas três meses, em uma casa de família, no Guará II. Apesar do pouco tempo de serviço, desde que chegou, a recomendação é a mesma. "Não posso gastar. Tenho que economizar a água e o dinheiro da minha patroa", comentou.
Para ajudar na batalha contra o desperdício, a doméstica só pode lavar roupa duas vezes por semana e limpar a casa com balde. O quintal, apesar de estar repleto de plantas, é lavado apenas uma vez por semana. "Se a gente não cuidar, vai faltar", ressaltou.
Não dá para desperdiçar água. A gente corre o risco de ficar sem
José Cezário, 63 anos, morador do Guará
Jornal de Brasília, 29/11/2007, Cidades.
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