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Selo verde vai incentivar projetos de infraestrutura

O Globo, Economia, p. 22
26 de set de 2019

Selo verde vai incentivar projetos de infraestrutura
Concessões ferroviárias devem ser as primeiras a captar financiamentos atrelados a padrões sustentáveis

GLAUCE CAVALCANTI, RENNAN SETTI E MANOEL VENTURA
economia@oglobo.com.br
RIO E BRASÍLIA

O setor de ferrovias será o primeiro no cronograma de concessões do governo federal com a opção de captar financiamento no mercado de green bonds, os chamados títulos verdes. Um acordo assinado em Nova York na semana passada pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, com a Climate Bonds Initiative (CBI, na sigla em inglês) vai viabilizar o primeiro green bond governamental feito no mundo, segundo Thatyanne Gasparotto, diretora para América Latina da certificadora internacional de projetos ambientalmente sustentáveis.

Um selo verde conferido a projetos que serão concedidos à iniciativa privada ampliará oportunidades de crédito. Os primeiros projetos devem sair no início de 2020.

- Temos que ter projetos sustentáveis. Alguns que se destaquem pela substituição de carbono são muito elegíveis para essestítulos verdes. Éo caso das ferrovias, que tiram muitos caminhões das rodovias, eliminando emissão de carbono. Dar esse carimbo a esses projetos é mostrar para investidores que já têm essa preocupação com responsabilidade ambiental que o projeto é interessante - disse Freitas ontem, após participar da cerimônia oficial de reabertura da pista principal do Aeroporto Santos Dumont, no Rio.

PREOCUPAÇÃO CRESCENTE
Green bonds são títulos emitidos com o objetivo de captar recursos para investimentos em projetos com impactos o cio ambiental positivo, incentivando a mitigação de efeitos de mudanças climáticas.

Segundo Freitas, o foco inicial do governo será a certificação dos projetos de ferrovias e, posteriormente, portos, aeroportos e rodovias que compõem a carteira de concessões do governo. A certificação teria impacto ainda nas metas do país de redução de emissões previstas no Acordo de Paris, disse o ministro. No momento em que a política ambiental do governo Bolsonaro sofre críticas internacionais, principalmente por causa das queimadas na Amazônia, ele reconheceu que é crescente a preocupação dos investidores com o tema:

- Investidores institucionais estratégicos vão, cada vez mais, ter essa preocupação. E nós não estamos adormecidos para essa tendência. Ao contrário, estamos muito atentos.

Freitas disse que é difícil prever quanto os títulos podem trazer em financiamentos ao país. Mas frisou que o total de investimentos em infraestrutura pode saltar de R$ 11 bilhões em 2019 para R$ 50 bilhões em 2020.

A CBI vai avaliar as concessões de ferrovias planejadas pelo governo, que somam perto de R$ 16 bilhões em investimentos nos projetos Ferrogrão, Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e Ferrovia de Integração do Centro-Oeste(Fico ). Comisso, vai estimar que etapas (e quantos projetos) poderão justificar emissões de green bonds.

O planejamento é que, até o começo de 2020, a avaliação dos três projetos esteja concluída. O passo seguinte ainda não foi definido, mas são consideradas a renovação de ferrovias (R$ 46 bilhões) e a concessão de hidrovias.

De acordo com Thatyanne, da CBI, o setor de ferrovias foi escolhido por ser o mais diretamente associado à redução de emissões de carbono, sobretudo no escoamento de commodities. O modal tem pegada ecológica mais limpa que rodovias e aviões.

Até hoje, já foram emitidos US$ 5,1 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões, em cotação de hoje) em títulos verdes no Brasil, ou 41% de todas as emissões da América Latina, segundo dados da CBI. Este ano, já foi mais US$ 1 bilhão.

-Esse programa temo potencial de multiplicarem algumas vezes o estoque degreen bonds já emitidos pelo Brasil - disse a diretora da CBI. - Nunca tivemos tanto capital disponível, e hoje há mais investidores em busca de papéis verdes do que dos tradicionais.

Ela avalia que, depois da crise da Amazônia, o programa pode ajudar na recuperação da imagem do Brasil:

-Nãoéa primeira vez que o Brasil passa por isso, mas o fato é que está sob os holofotes do mundo. Os green bonds são uma oportunidade de o setor privado brasileiro mostrar na prática que financia projetos sustentáveis.

O Globo, 26/09/2019, Economia, p. 22

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